Os eleitores do Peru vão às urnas neste domingo (12) para escolher quem será o novo presidente do país. A disputa é marcada pelo número recorde de 35 candidatos e pelo fato de que o vencedor será o nono presidente a ocupar o cargo desde 2016.
Veja quem são os principais candidatos:
Keiko Fujimori
Nos últimos 15 anos, o nome de Keiko Fujimori tem sido uma constante nas eleições presidenciais no Peru. Nesse período, a filha do falecido ex-presidente Alberto Fujimori e líder do partido Fuerza Popular concorreu três vezes à presidência e nas três ocasiões chegou ao segundo turno. Agora, ela está em sua quarta corrida ao Palácio do Governo.
Keiko Fujimori tem 50 anos. Nasceu em Lima em 25 de maio de 1975, conforme seu currículo disponível no site do Júri Eleitoral Nacional. Ela é a mais velha dos quatro filhos de Alberto Fujimori, falecido em 2024, e Susana Higuchi, falecida em 2021.
Em vídeo publicado em seu canal no YouTube ela conta que quando jovem não pensava em entrar na política, mas queria ser empresária, por isso estudou Administração de Empresas e depois fez mestrado nos Estados Unidos.
“Nunca esteve nos meus planos ser política. Mas, uma vez decidida e tomada a decisão, tive que fazê-la bem”, diz ela.
Ela diz que sua vida deu uma guinada em 2005, quando seu pai ligou para avisar que estava sendo investigado e poderia ser preso. Nesse contexto, o pai também a convidou para ser candidata ao Congresso nas eleições do ano seguinte. Ela concordou, concorreu com a Alianza por el Futuro e conquistou uma cadeira no Parlamento, passo que representou sua entrada plena na vida pública do Peru.
Em 2007, quando ainda era era parlamentar, seu pai foi extraditado do Chile para o Peru, onde em 2009 foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado e lesões graves nos casos Barrios Altos e La Cantuta. Desde então, tanto o ex-presidente como a sua família rejeitaram as acusações e lutaram pela sua liberdade.
Em 2009, Keiko Fujimori mobilizou-se para fundar o Fuerza Popular, partido político que se define como defensor do legado de Alberto Fujimori e que hoje tem 20 dos 130 assentos no Congresso, a maior bancada do atual Parlamento.
“Ela construiu o partido que seu pai nunca quis construir. O que Alberto Fujimori fez durante seus 10 anos de governo foi construir uma corrente chamada fujimorismo e Keiko transformou isso em uma organização. É uma organização que lhe permitiu ter uma base de intenção de voto permanente”, explicou o especialista Fernando Tuesta, cientista político da Pontifícia Universidade Católica do Peru.
Como candidata presidencial, Fujimori chegou ao segundo turno em 2011 – quando o Fuerza Popular concorreu sob o nome de Fuerza 2011 – e obteve 48,55% dos votos, atrás de Ollanta Humala com 51,44%. Em 2016, perdeu no segundo turno para Pedro Pablo Kuczynski, com resultado de 49,88% a 50,12%. Em 2021, os números voltaram a ficar próximos: ela alcançou 49,87% dos votos, contra 50,12% de Pedro Castillo.
Olhando para as eleições deste domingo, as últimas pesquisas apontam Fujimori como a candidata com maior intenção de voto, embora não seja suficiente vencer no primeiro turno. A questão, porém, é se esse cenário se concretizará e quem passará com ela para a próxima fase.
No seu Plano de Governo, em termos de segurança, Fujimori propõe a criação de centros de comando e vigilância que estejam interligados a nível nacional, tenham mapas de criminalidade em tempo real e utilizem inteligência artificial para realizar análises preditivas e ajudar na coordenação de emergências.
Para combater a corrupção, a candidata propõe fortalecer os processos de controle orçamentário e dar mais poderes à Controladoria, enquanto, na economia , nclui um plano para reduzir os procedimentos que as médias e pequenas empresas devem realizar para evitar o que chama de “custos desnecessários”.
Em 2017, foi anunciado que Fujimori estava sendo investigada por supostamente ter recebido dinheiro da construtora Odebrecht para financiar as suas campanhas presidenciais, algo que ela rejeitou repetidamente.
A líder foi presa por este caso em 2018 e permaneceu na prisão durante 13 meses, até que em 2019 o Tribunal Constitucional do Peru aceitou um recurso apresentado pela sua família para que ela pudesse enfrentar o julgamento em liberdade.
Quando apresentou a sua quarta candidatura presidencial em outubro do ano passado, Fujimori insistiu que foi “perseguida”. O tribunal anulou o caso e declarou sem efeito o julgamento contra ela por lavagem de dinheiro. Agora, Fujimori quer deixar essas controvérsias e suas derrotas passadas para trás.
Rafael López Aliaga
Membro do Opus Dei, ultraconservador e celibatário desde os 19 anos, Rafael López Aliaga apelará à fé para alcançar o que nenhum prefeito de Lima conseguiu até agora em mais de cem anos de história política do Peru: quebrar a “maldição” e tornar-se presidente.
López Aliaga oscilou nas últimas semanas entre o segundo e o terceiro lugar em algumas pesquisas de intenção de voto, disputando espaço principalmente contra Keiko Fujimori e Carlos Álvarez, do partido País para Todos.
Nesse contexto, as chances de López Aliaga se tornar presidente são provavelmente maiores em um segundo turno contra Fujimori, disse à CNN Henry Ziemer, pesquisador associado do Programa das Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Esse, diz o pesquisador, é o seu desafio: conseguir disputar um segundo turno em um panorama onde há vários candidatos que, como ele, buscam capitalizar as preocupações com a insegurança e o crime organizado, duas questões fundamentais para os peruanos.
“Sou membro do Opus Dei desde muito jovem, desde os 19 anos, incluindo o celibato, que é uma escolha muito pessoal minha e me alimenta com base na Eucaristia diária. É isso que me dá força”, disse López Aliaga em entrevista à mídia local Andahuaylas TV.
Engenheiro industrial nascido na cidade peruana de Chiclayo, López Aliaga é filho de pais engenheiros químicos. Além de se definir como um homem de fé, cresceu vendo o pai administrar uma empresa de cana-de-açúcar e diz que foi daí que surgiu seu amor pela ciência.
Com uma longa carreira em diversos bancos, López posteriormente se envolveu como empresário no setor de turismo e hotelaria no Peru. Investiu em hotéis de luxo em Machu Picchu e em trens que transportam turistas ao santuário histórico. Ele também fundou três escolas e um centro de tecnologia.
Sua carreira política começou como vereador provincial, cargo que ocupou por 13 anos, entre 2007 e 2020. Em seguida, assumiu o cargo de prefeito de Lima em 2022, quando prometeu que levaria a capital peruana a ser uma “potência mundial”. Ele renunciou ao cargo em outubro de 2025 para ser candidato presidencial.
Popularmente conhecido como “Porky”, por sua aparência que lembra a do desenho animado, ele pegou esse apelido e o tornou parte de sua identidade. Opôs-se abertamente ao aborto legal, que considera um “crime abominável”, e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
As posições sociais conservadoras de López Aliaga, bem como a sua abordagem severa ao crime e à migração, alinham-se estreitamente com as do eleitor médio no Peru, disse à CNN Nicolás Saldías, analista sénior para a América Latina e as Caraíbas da Economist Intelligence Unit (EIU). Sua experiência como ex-prefeito de Lima e sua personalidade “única”, somada a uma “sólida base de apoio em Lima” trabalharam a seu favor para se posicionar entre dezenas de candidatos, acrescenta Saldías.
Quatro eixos estruturam a proposta de López Aliaga para a presidência: o fim do crime; saúde e educação; infraestruturas e desenvolvimento nacional; e redução do Estado e combate à corrupção.
Ele prometeu construir de prisões isoladas que reproduzissem o modelo do presidente Nayib Bukele em El Salvador; expulsar imigrantes irregulares e retirar o país da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para aplicação da pena de morte, além de reformar o Judiciário para condenar juízes que libertam criminosos.
Ele também propõe reduzir ministérios e eliminar a publicidade para os meios de comunicação. Também busca reduzir os salários dos funcionários públicos e tornar ad honorem os cargos políticos de presidentes, parlamentares, governadores regionais e prefeitos.
Carlos Álvarez
Antes das eleições deste ano, Carlos Álvarez já era uma figura conhecida na política peruana. Mas não porque ocupou cargos públicos ou disputou em outras eleições. Comediante de profissão, Álvarez construiu sua fama imitando líderes políticos dentro e fora de seu país, desde ex-presidentes peruanos até os atuais líderes dos Estados Unidos, Donald Trump; da Colômbia, Gustavo Petro, ou da Argentina, Javier Milei.
Agora, Álvarez deu uma reviravolta na carreira e aspira trilhar outros caminhos na vida pública do Peru, onde busca a presidência pelo partido País para Todos.
Álvarez é natural de Lima, onde nasceu em 7 de janeiro de 1964, segundo seu currículo publicado no site do Júri Eleitoral Nacional. A mesma fonte indica que concluiu o ensino secundário e não possui estudos técnicos, universitários ou pós-graduados registados. Ele também não tem experiência política e partidária anterior.
De acordo com seu currículo, desde 2020 atua como comediante freelancer e anteriormente exerceu a mesma atividade em programas de televisão.
Álvarez garante que, apesar de ter menos experiência política que os seus rivais, está confiante de que a sua candidatura conseguirá atrair votos porque muitos eleitores se conectarão com as suas propostas, entre as quais se destacam diversas ações de segurança pública.
No seu Plano de Governo, por exemplo, o candidato propõe aumentar o patrulhamento policial, realizar “intervenções direcionadas” em áreas com elevada incidência de criminalidade e tomar medidas de combate à extorsão. No plano social, Álvarez propõe fortalecer a educação e reduzir a anemia infantil.
“Fiz uma campanha com uma mensagem, acho que repercutiu nas pessoas”, disse em entrevista à América TV.
Os analistas concordam que Álvarez é “um outsider” na política peruana e que a sua principal força reside no fato de ser uma figura conhecida, característica que lhe permitiu até ultrapassar alguns políticos tradicionais nas intenções de voto.
“Ele é muito conhecido porque vem do mundo do entretenimento há décadas, mas tem uma particularidade. É um comediante, um imitador de políticos. Ele fez rir gerações ao imitar vários daqueles que hoje são seus concorrentes”, disse o cientista político Fernando Tuesta.
O especialista questiona a viabilidade de algumas das propostas de Álvarez para a segurança pública, como a proposta de punir com pena de morte aqueles que cometem atos de homicídio por encomenda. A Constituição do Peru contempla a pena de morte, mas apenas para crimes de traição em casos de guerra e terrorismo, e de acordo com as leis e tratados internacionais assinados pelo Peru.
No campo ideológico, os especialistas concordam que Álvarez procura parecer distante das correntes políticas tradicionais, mas é fácil relacionar as suas propostas com visões de “punho de ferro” típicas da direita e da ultradireita.
Yadira Gálvez, acadêmica da Universidade Nacional Autônoma do México, considerou que Álvarez está tentando estabelecer semelhanças com Bukele, presidente de El Salvador, cuja política de segurança o tornou popular mas, ao mesmo tempo, rendeu acusações de possíveis violações dos direitos humanos,
“Ele se apresenta como esse personagem fora da esfera política tradicional, o que pode ser atraente para um setor do eleitorado porque não devemos esquecer que muitas pessoas no Peru estão desencantadas com suas instituições democráticas”, diz a analista.
Ricardo Belmont
Em sua campanha à presidência do Peru, Ricardo Belmont quer explorar pelo menos duas características de sua carreira: o tempo que passou na vida pública peruana e sua facilidade com as plataformas de comunicação. Isso fica claro em um dos últimos vídeos publicados em sua conta no TikTok, onde tem mais de 320 mil seguidores e estabelece uma analogia entre política e medicina.
“Querem operar o país sem experiência. Ricardo Belmont, assim como o médico, já tem experiência, tem muitos anos de experiência que quer deixar para as novas gerações. E o exemplo que dou é o seguinte: você deixaria sua filha, seu filho, de nove anos, fazer uma cirurgia cardíaca por alguém que nunca operou nem um apêndice?” diz o candidato, que já foi prefeito de Lima e candidato à presidência na década de 1990.
Belmont nasceu em Lima em 29 de agosto de 1945. Estudou Administração de Empresas na Universidade de Lima e dirigiu a Bicolor Communications Network, empresa dedicada à transmissão televisiva.
Segundo o analista político Gonzalo Banda, Belmont pertence a uma das famílias mais ricas do Peru e, no final da década de 1980, tornou-se “o primeiro outsider na política peruana” porque, não sendo membro de nenhum partido, fundou o seu próprio para poder concorrer à Câmara de Lima.
Foi assim que Belmont criou o Movimento Obras, hoje Partido Cívico das Obras, com o qual venceu as eleições de 1989 com 45,14% dos votos. Tornou-se prefeito de Lima em 1990 e, após ser reeleito em 1993, ocupou o cargo até 1995.
Nesse mesmo ano foi candidato à presidência, mas obteve apenas 2,58% dos votos, contra os 64.42% que reelegeram o então presidente Alberto Fujimori.
A partir daí iniciou-se um longo período de entradas e saídas da vida política peruana. De 2009 a 2011 foi deputado substituto – assumiu o cargo no lugar de outro legislador – e em 2018 concorreu novamente à prefeitura de Lima, embora tenha obtido apenas 3,88% dos votos.
Paralelamente, através das redes sociais e com base na sua experiência no rádio, ganhou notoriedade com vídeos em que falava sobre a situação no Peru..
“Ele construiu uma base sólida de seguidores a partir de um discurso antiestablishment, antissistema, porque reclamava do sistema econômico, reclamava do sistema político, com posições muito extremistas tanto de direita quanto de esquerda”, diz o analista Gonzalo Banda à CNN.
Segundo o analista, um dos pontos fortes de Belmont é que ele é uma figura que cresceu rapidamente nas últimas semanas, em parte graças a mensagens que se conectam com o descontentamento de um segmento do eleitorado.
“Ele é um insider que estava se aposentando e que voltou”, disse ele. “Há uma sedução nas suas palavras e ele foi o único que, em uma campanha atormentada pelo tédio com a política, falou em termos muito simples”, acrescenta.
No seu Plano de Governo, Belmont propõe reestruturar todo o sistema de segurança e justiça, incluindo a Polícia Nacional, o Ministério Público, o Instituto Penitenciário Nacional e o Poder Judiciário, bem como melhorar a transparência com uma plataforma digital de acompanhamento de obras públicas.
No âmbito social, propõe garantir o acesso aos serviços de saúde nas áreas rurais e vulneráveis e reduzir a pobreza com medidas de promoção do empreendedorismo, entre outras ações.
Em seus vídeos no TikTok – nos quais costuma aparecer acompanhado dos filhos Augusto e Kristen – Belmont afirma estar pronto para conquistar a presidência do Peru e conduzir o país a um futuro melhor.
“Temos que educar o povo, politizar o povo, o povo tem que aprender sobre política porque política é tudo na vida”, afirma o candidato em um desses vídeos, rodeado de apoiantes.
Fonte: Cnn Brasil




