
Foto-Garcia Neto (Web)
A Polícia Civil de Mato Grosso concluiu uma das etapas fundamentais do inquérito que apura a execução brutal de Lavignia Gabrielly Guimarães Coutinho, de 20 anos, assassinada a tiros no dia 10 de maio em uma casa noturna em Poxoréu (a 45 Km de Primavera do Leste). Após três meses de diligências no âmbito da Operação Elo Oculto (e desdobramentos da Operação Véu de Ísis), as investigações apontaram que o crime foi um clássico “tribunal do crime”, encomendado de dentro do sistema prisional e viabilizado com o auxílio logístico do ex-vereador do município, Túlio César.
Em coletiva de imprensa, o delegado Honório Neto (foto) detalhou como o assassinato foi friamente articulado. A jovem foi decretada pela cúpula da facção sob a suspeita de que repassava dados sobre o tráfico de drogas e integrantes do grupo às forças de segurança local — desconfiança alimentada pelo fato de sua mãe trabalhar na base da Polícia Militar e de a jovem frequentemente auxiliá-la em serviços no local. A ordem expressa da liderança era executar Lavignia em um local público, criando um cenário de terror com o objetivo de intimidar a população e silenciar potenciais informantes.
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A Engrenagem da Execução: Do Presídio às Ruas
Conforme demonstrado pelo inquérito, a ordem para o homicídio partiu de uma liderança do Comando Vermelho reclusa na Penitenciária da Mata Grande, em Rondonópolis. De dentro da cela, o mandante manteve comunicação direta com comparsas nas ruas para monitorar a rotina da vítima.
A dinâmica do crime envolveu uma divisão precisa de tarefas:
O Executor e a Emboscada: O atirador foi trazido de fora da cidade e permaneceu escondido em um ponto estratégico aguardando ordens.
A Isca: Uma adolescente atraiu a vítima até a casa noturna sabendo do plano. A conduta da jovem é apurada em procedimento paralelo, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A Execução: Assim que a chegada de Lavignia foi confirmada, o assassino se aproximou e efetuou cinco disparos à queima-roupa (a cerca de 20 a 30 cm de distância), sem dar qualquer chance de defesa à vítima.
Apoio Político e Tentativa de Álibi
Um dos pontos mais sensíveis revelados pelas provas técnicas é a participação ativa de Túlio César. A Polícia Civil apurou que o ex-vereador tinha conhecimento prévio do plano e colocou sua estrutura à disposição da organização criminosa.
Logo após a execução, o ex-parlamentar recebeu mensagens e chamadas no WhatsApp, foi ao encontro do atirador em seu esconderijo e garantiu sua fuga para fora de Poxoréu. Além disso, análises periciais em telefones apreendidos interceptaram diálogos de Túlio combinando versões e forjando álibis com outra liderança da facção nas ruas — suspeito este que morreu posteriormente em confronto com a Polícia Militar.
Apesar de o ex-vereador e a liderança detida na Mata Grande negarem o envolvimento, o robusto conjunto probatório resultou no indiciamento de ambos pelos crimes de:
Homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima);
Organização criminosa com causas de aumento de pena (pela participação de adolescente, emprego de arma de fogo e liderança).
Ambos responderão perante o Tribunal do Júri.
O Avanço das Facções e a Cooptação do Poder Público em MT
O caso de Poxoréu não é um fato isolado e insere-se em um padrão alarmante registrado em Mato Grosso ao longo dos últimos três meses:
Avanço sobre o Poder Público local: A aliança entre agentes políticos e o crime organizado tem se consolidado como uma das maiores ameaças à segurança regional. A prisão de vereadores e gestores cooptados pelas facções para lavagem de dinheiro, facilitação logística ou cobertura em crimes violentos reflete a tentativa do crime de infiltrar-se nas instâncias do Estado.
Comando Parado x Ação nas Ruas: O assassinato de Lavignia escancara a permanência do controle operational do Comando Vermelho a partir do interior dos estabelecimentos penais, demonstrando como ordens de retaliação e execução transitam do sistema carcerário para os municípios do interior.
Domínio Territorial e “Paralelismo Estatal”: O homicídio encomendado para “dar exemplo” em público junta-se a outras ações recentes registradas em MT nos últimos 90 dias, como a expansão de “tribunais do crime” e a intimidação sistemática de testemunhas no interior do estado.
Enquanto um novo inquérito foi aberto pela Polícia Civil para identificar o executor material dos disparos, o caso de Lavignia evidencia o desafio enfrentado pelas forças policiais diante de uma criminalidade que transcende os muros dos presídios e cooptou a política local.
Fonte: Click F5





