Mato Grosso chegou à marca de 16 feminicídios (assassinato de mulheres em razão do gênero) no decorrer de 2026. Somente nesta segunda semana de maio, três mulheres tiveram as vidas ceifadas no Estado em um curto intervalo de tempo: a empresária Nilza Moura de Sousa Antunes, de 64 anos, em Cuiabá; Elzilene Alves do Nascimento, de 49 anos, em Várzea Grande; e a estudante de Direito Valéria Araújo Corrêa, de 28 anos, na cidade de Tangará da Serra (242 km de Cuiabá). Todas as vítimas foram mortas de forma cruel e, até o momento, todos os assassinos estão presos.
Um dado alarmante une os três casos recentes. Nenhuma das vítimas conseguiu registrar boletim de ocorrência ou solicitar medida protetiva contra os agressores antes dos crimes. O levantamento do aponta que os agressores já possuíam passagens anteriores pela polícia, mas as vítimas permaneciam sem o amparo de mecanismos legais de proteção.
O primeiro caso desvendado nesta semana foi o de Nilza, empresária do ramo imobiliário, que foi encontrada morta e enterrada no quintal de uma residência no bairro Parque Cuiabá, na Capital, na última segunda-feira (5).
O marido dela, Jackson Pinto da Silva, de 38 anos, confessou ter amarrado o corpo e utilizado um lacre plástico, conhecido como “enforca-gato”, para asfixiá-la. Na tentativa de ocultar o cadáver, ele contratou uma máquina para cavar o buraco no quintal, alegando que o serviço seria para a instalação de uma manilha.
Além da violência física, o crime teve motivação financeira, uma vez que ele chegou a simular um sequestro da esposa e realizou transferências bancárias com o dinheiro da vítima após a morte.
O segundo feminicídio da semana ocorreu em Várzea Grande, onde Elzilene foi assassinada a facadas por Francisco Carlos Pereira da Silva, de 68 anos. O corpo da vítima foi localizado em um córrego, em uma área de mata no bairro Marajoara, na manhã de quinta-feira (7).
De acordo com a investigação da Polícia Judiciária Civil, o homem atraiu a esposa para um suposto passeio na região e, ao chegar em um local isolado, passou a atacá-la. Ele desferiu 10 golpes de faca contra a mulher, que chegou a pedir clemência e implorar pela vida, mas não resistiu aos ferimentos.
Nestes dois primeiros episódios, as vítimas mantinham relacionamentos de longa data com os companheiros. Ambos os assassinos premeditaram as execuções e tentaram despistar o trabalho policial ao registrarem boletins de ocorrência por desaparecimento das esposas, fingindo não saber do paradeiro delas enquanto os corpos já estavam ocultados.
Ainda na quinta-feira (7), ganhou repercussão a morte da estudante de Direito Valéria Araújo Corrêa, de 28 anos, assassinada na quarta-feira (6). José Carlos Gomes de Souza, de 20 anos, confessou o homicídio e o estupro da vítima, sendo preso nesta sexta-feira (8). Em depoimento, ele relatou ter dado 31 facadas contra Valéria, concentrando 26 delas na região do pescoço.
A Polícia Civil apontou que ele agiu sozinho e monitorou a residência da estudante durante toda a manhã antes da invasão. Imagens de câmeras de segurança mostram o homem circulando nas proximidades da casa e pulando o muro lateral, permanecendo no imóvel por mais de três horas.
O corpo de Valéria foi encontrado com mãos e pés amarrados e sem roupas, enrolado em lençóis, enquanto a faca usada no crime foi recuperada em uma caçamba de lixo.
Balanço da violência contra a mulher
No total, dos 16 feminicídios registrados este ano em Mato Grosso, apenas uma vítima possuía medida protetiva. O mês de março foi o mais violento do período, com seis registros de morte.
Até agora, as autoridades aplicaram 6.532 medidas protetivas no Estado, um número que busca frear a violência que, em 2025, gerou 18.223 pedidos de proteção.
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As medidas protetivas, previstas na Lei Maria da Penha (11.340/2006), são mecanismos cruciais que oferecem garantias e segurança para que mulheres possam denunciar seus agressores.
Elas podem ser solicitadas independentemente da tipificação penal ou da instauração imediata de inquérito, servindo para coibir a violência com restrições que, se descumpridas, geram consequências criminais imediatas e prisão do agressor.
Denuncie
A violência contra a mulher não pode ser ignorada e nem ficar impune. Em Mato Grosso, há canais gratuitos e seguros para denunciar agressões, ameaças ou risco de feminicídio. As denúncias podem ser anônimas e o boletim de ocorrência pode ser feito online, por meio da Delegacia Digital: https://delegaciadigital.pjc.mt.gov.br/.
Em caso de emergência ou flagrante, procure ajuda imediata pelos telefones 190 (Polícia Militar), 197 (Polícia Civil), 181 (Disque Denúncia) ou 180 (Central de Atendimento à Mulher). Em Cuiabá, também é possível acionar a Patrulha Maria da Penha pelo número (65) 98170-0199.
O atendimento presencial está disponível na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá e na Delegacia da Mulher de Várzea Grande. A pena para crimes contra a mulher pode chegar a 40 anos de prisão, conforme estabelecido pela Lei Federal nº 14.994/2024, conhecida como Pacote Antifeminicídio.
Fonte: Repórter MT




