A Operação Vérnix, deflagrada na manhã desta quinta-feira (21) pelo Gaeco de Presidente Prudente, com apoio daPolícia Civil de São Paulo, colocou no centro de uma investigação sobre suposta lavagem de dinheiro nomes conhecidos do público e personagens históricos do crime organizado brasileiro.
Entre os alvos dos mandados estão a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, integrantes da família de Marcos Willians Herbas Camacho e pessoas apontadas pelas autoridades como responsáveis por movimentações financeiras ligadas à estrutura econômica do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Segundo a investigação, o foco da operação não está diretamente em crimes violentos ou no tráfico em si, mas na suposta existência de uma rede utilizada para ocultar patrimônio, movimentar recursos e reinserir valores de origem ilícita na economia formal.
Ao todo, a Justiça autorizou 6 prisões preventivas, bloqueios patrimoniais e medidas cautelares que atingem bens e empresas vinculadas aos investigados.
Segundo apuração da CNN Brasil, os alvos dos mandados de prisão são:
- Deolane Bezerra, influenciadora (mandado de prisão cumprido em Barueri);
- Everton de Souza, vulgo Player, que seria operador financeiro do esquema (mandado de prisão cumprido);
- Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola (mandado de prisão cumprido em penitenciária federal);
- Alejandro Camacho, irmão de Marcola (mandado de prisão cumprido em penitenciária federal);
- Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola (foragida, estaria na Bolívia, mandado de prisão incluído na Difusão Vermelha);
- Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola (foragido, estaria em Madri, mandado de prisão incluído na Difusão Vermelha).
A CNN Brasil tenta localizar a defesa dos citados. O espaço segue aberto.
Quem é Deolane Bezerra
A trajetória pública de Deolane começou no Direito, mas ganhou dimensão nacional no universo do entretenimento e das redes sociais. Advogada, ela se tornou conhecida nacionalmente após a morte do marido, o cantor MC Kevin, em maio de 2021.
A repercussão do caso transformou Deolane em uma figura digital. Nos anos seguintes, ampliou sua presença como influenciadora, lançou projetos empresariais, participou de programas de televisão e passou a construir uma imagem associada a estilo de vida de luxo, viagens internacionais e patrimônio elevado.
Nos últimos anos, porém, seu nome também passou a aparecer em investigações financeiras. Em 2024, ela foi presa durante a Operação Integration, conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco, que apurava suspeitas de lavagem de dinheiro e exploração ilegal de jogos. Em fevereiro deste ano, a Justiça Federal declarou nulos atos praticados pela Justiça Estadual em relação aos crimes federais investigados e determinou que a Polícia Federal reavaliasse o material produzido. A decisão não extinguiu a investigação nem representou absolvição dos investigados. Até o momento, também não havia denúncia formal apresentada naquele caso.
Agora, na Operação Vérnix, Deolane volta ao centro de uma investigação diferente. Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público paulista, os elementos reunidos apontariam movimentações financeiras consideradas incompatíveis, circulação de valores expressivos e conexões empresariais que passaram a ser analisadas no contexto de uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro. As conclusões, no entanto, ainda dependem do avanço do processo e da análise judicial, com garantia do contraditório e da ampla defesa.
De acordo com fontes do Ministério Público, havia expectativa inicial de cumprimento da medida enquanto Deolane estava na Itália, onde permaneceu nas últimas semanas. O nome da influenciadora até chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol. No entanto, ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20), antes da execução dos mandados.
Quem é Marcola
Se Deolane representa o lado mais conhecido do universo digital, o nome de Marcola carrega décadas de histórico criminal e investigações sobre o crime organizado.
Marcos Willians Herbas Camacho nasceu em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, em 1968. Filho de pai boliviano e mãe brasileira, perdeu a mãe ainda criança e, segundo registros históricos, passou parte da juventude nas ruas do centro da capital paulista.
Seu apelido surgiu ainda na adolescência e, ao longo dos anos, se tornou um dos nomes mais conhecidos do sistema penitenciário brasileiro. Após passagens por pequenos crimes patrimoniais, foi preso pela primeira vez nos anos 1980 e posteriormente passou pelo antigo sistema carcerário paulista, período em que teve contato com integrantes que dariam origem ao PCC.
Autoridades apontam que sua ascensão dentro da facção ocorreu nos anos 1990 e início dos anos 2000, até assumir posição de liderança. Sob sua gestão, segundo investigações e decisões judiciais, o grupo expandiu sua atuação para além dos presídios, consolidando estruturas voltadas ao tráfico e à movimentação financeira ilegal em diferentes estados e países vizinhos.
Marcola, por sua vez, historicamente nega perante a Justiça exercer liderança sobre a organização.
Seu nome ganhou notoriedade nacional especialmente após os Crimes de Maio de 2006. Naquele episódio, uma série de ataques atribuídos ao PCC e confrontos posteriores deixaram 564 mortos em nove dias no estado de São Paulo, em meio à transferência de lideranças para presídios do interior.
Hoje, aos 58 anos, Marcola permanece preso em penitenciária federal de segurança máxima em Brasília e acumula condenações por diferentes crimes. Apesar disso, continua sendo alvo frequente de investigações patrimoniais e financeiras.
Os investigadores também apontam que seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, conhecido como “Gordão”, teria exercido papel central na gestão da estrutura econômica investigada, atuando em conjunto com Marcola.
O papel da família Camacho na investigação
Um dos pontos centrais da apuração envolve familiares de Marcola.
Segundo o inquérito, Paloma Sanches Herbas Camacho, filha de Alejandro e sobrinha de Marcola, seria responsável por transmitir ordens recebidas durante visitas ao sistema prisional federal para os gestores financeiros externos. A polícia afirma que ela orientava repartição de recursos, definia transferências e indicava contas para recebimento dos valores atribuídos ao esquema.
Já Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, irmão de Paloma, aparece na investigação como beneficiário de parte da divisão patrimonial investigada, conforme registros analisados pela polícia.
Segundo os investigadores, os dois núcleos funcionariam de maneira complementar: enquanto integrantes da família fariam a transmissão de ordens e gestão patrimonial, o núcleo financeiro teria a função de conferir aparência formal e circulação econômica aos recursos.
As prisões e medidas cautelares autorizadas pela Justiça são provisórias e integram fase investigativa. Eventuais responsabilizações criminais dependem do andamento do processo e de decisão judicial definitiva.
O que a operação busca
A presença simultânea de familiares de Marcola, de um suposto operador financeiro e de uma influenciadora de grande alcance fez com que a Operação Vérnix fosse interpretada pelas autoridades como uma ofensiva focada menos na estrutura operacional do crime e mais em sua sustentação econômica.
Segundo os investigadores, o objetivo é rastrear fluxos financeiros, interromper movimentações consideradas ilícitas e atingir patrimônio que eventualmente tenha sido utilizado para ocultar recursos. A responsabilização criminal dos investigados, porém, dependerá do andamento das apurações e de futuras decisões do Judiciário.
Fonte: Cnn Brasil




