“O maior partido conservador do mundo” baixou os homicídios no Brasil

🕒

PUBLICIDADE

O Atlas da Violência 2026 registra a menor taxa nacional de homicídios desde 2014: 20,1 por 100 mil habitantes em 2024. Houve uma queda de 32,8% em uma década. O Ipea atribui o resultado a “mudanças demográficas, crime organizado e gestão de segurança”.

O relatório cita a demografia, mas não destrincha o seu peso. Entre 2010 e 2022, o Brasil perdeu 3,9 milhões de jovens de 15 a 29 anos — a faixa que mais mata e mais morre. A idade mediana saltou de 29 para 35 anos. Temos 57,4% mais idosos e 12,6% menos crianças. A pirâmide virou.

Em 1980, os idosos eram 4% e as crianças, 38,2%. Hoje, os idosos são 10,9% e as crianças, 19,8%.

Por que menos filhos? Urbanização, custo de vida, educação, trabalho e anticoncepção. A fecundidade caiu de 6,2 em 1960 para 1,6 em 2023, ficando abaixo da taxa de reposição. Filhos viraram um projeto caro e adiado.

A pílula e o DIU mudaram mais a história do que qualquer decreto. Criminologia básica: 80% dos homicídios envolvem jovens de 15 a 29 anos. É a chamada “curva da idade-crime”. Se a base encolhe, as mortes caem. É matemática.

O Atlas mostra na página 39: a taxa de homicídios de jovens caiu de 63,8 para 42,2 por 100 mil jovens entre 2014 e 2024 — uma queda de 33,9%. Não há apenas menos jovens na rua; há menos jovens morrendo proporcionalmente. Isso também é mérito da segurança pública.

O problema está na comparação entre os estados. O Atlas e o Anuário usam a taxa por 100 mil habitantes. O índice corrige pelo tamanho da população, mas não pela idade. Estados com uma pirâmide madura lideram o ranking positivo: São Paulo teve 8,0 por 100 mil em 2024; Santa Catarina, 8,4; Distrito Federal, 10,9.

Já os estados com a transição atrasada lideram o ranking negativo: Amapá com 45,6; Bahia com 45,4; Pernambuco com 44,1; e Ceará com 42,2. Das 20 cidades mais violentas do país, 17 estão no Nordeste.

Mato Grosso é a prova de que a demografia não é um destino inevitável. Com idade mediana de 33 anos e fecundidade de 1,7, o estado já fez a transição. Mesmo assim, registrou 24,2 homicídios por 100 mil habitantes em 2023, acima da média nacional. Três fatores anulam o dividendo demográfico: a fronteira de 750 km com a Bolívia (rota de cocaína e armas); a violência concentrada em Várzea Grande (23,3) e Cuiabá (18,4 por 100 mil); e o ciclo do agro em Sorriso e Sinop, que atrai uma população jovem migrante, majoritariamente sozinha e sem rede de apoio.

A demografia abre a porta, mas a facção e a ausência do Estado podem trancá-la. É o mesmo raciocínio de Freakonomics: Levitt e Dubner ligaram a queda do crime nos EUA à legalização do aborto 20 anos antes. Cito o dado como análise criminológica, sem entrar no mérito da escolha política do aborto — tema que envolve profundas convicções religiosas e éticas que respeito. Aqui, a queda da fecundidade desde 2000, por anticoncepção e planejamento, cobra a fatura agora. Mas, como a taxa de jovens caiu 33,9%, há mais do que uma “geração que não nasceu”.

Houve prevenção e prisão qualificada. Como dizia Gaiarsa, as mães são “o maior partido conservador do mundo”. Ao terem menos filhos, exercem a força política mais eficaz contra a guerra. O envelhecimento é essa recusa silenciosa. Isso não significa dizer que a segurança não importa. São Paulo envelheceu e também ocupou territórios.

O Ceará, por outro lado, colapsou com as facções. No entanto, tratar a taxa por 100 mil habitantes como base direta de comparação é um erro. É o mesmo que comemorar a queda no gasto com fraldas sem lembrar que estão nascendo menos bebês.

O FBSP e o Ipea precisam divulgar a taxa padronizada por idade. Se a taxa de jovens caiu em todo o território, aplaudimos a polícia. Se caiu apenas onde a população envelheceu, o mérito é do IBGE. A guerra começa no berço. E, quando o berço esvazia, a guerra recua. Até nos anuários.

José Antônio Borges Pereira é procurador de Justiça da Especializada de Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico

* A opinião do articulista não reflete necessariamente a opinião do PNB Online



Fonte: Pnb Online