A polarização política e a descrença nas instituições de investigação têm tornado os eleitores brasileiros cada vez mais tolerantes com escândalos de corrupção envolvendo seus candidatos preferidos. A avaliação é de Leonardo Barreto, cientista político e sócio da consultoria Think Policy, ao Hora H, na qual comentou os resultados da pesquisa Atlas/Bloomberg sobre Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Jaques Wagner.
Segundo Barreto, o cenário atual difere significativamente do passado, quando crises semelhantes tinham maior potência para prejudicar campanhas eleitorais. “A pessoa aceita mais a corrupção do seu lado preferido, os escândalos do seu lado preferido, porque acha que esse é o mal menor, considerando que o outro lado pode vir a se aproveitar disso para disputar e vencer o poder”, afirmou o especialista.
Rejeição elevada e descrença nas instituições
Barreto destacou que os dois principais líderes da disputa presidencial acumulam taxas de rejeição superiores a 50%. Para o analista, esse quadro cria uma circunstância favorável para que cada eleitorado seja tolerante em relação ao seu próprio campo político. Além da polarização, o cientista político apontou uma segunda razão para a normalização dos escândalos: a descrença nos órgãos de investigação.
“Os próprios órgãos de apuração têm pessoas envolvidas em escândalos”, disse, acrescentando que presidentes da Câmara e do Senado barram CPIs, que ministros do Supremo Tribunal Federal aparecem envolvidos por meio de contratos com investigados, e que o ministro responsável por uma investigação chegou a proibir contato com o diretor da Polícia Federal. “Isso cria uma sensação de desalento e a ideia de que não há para onde escapar”, concluiu.
O caso Jaques Wagner e a estratégia de Lula
Ao analisar especificamente a situação de Jaques Wagner, Barreto avaliou que o principal risco está no aprofundamento das investigações e em uma eventual colocação do senador no banco dos réus.
No entanto, o analista considerou que Lula minimiza essa possibilidade, ao menos no curto prazo. Para Barreto, a aparição pública de Lula ao lado de Wagner pode ter um componente estratégico: reforçar o discurso de perseguição política que o próprio Lula constrói desde que saiu da prisão para concorrer à eleição presidencial.
“Essa presença não pode passar outra mensagem que não seja um desafio aos órgãos de investigação”, afirmou.
Flávio Bolsonaro e as divisões no bolsonarismo
No que diz respeito à campanha de Flávio Bolsonaro, Barreto identificou sinais de uma rebelião interna no campo que chama de bolsonarismo.
O analista avaliou como equivocada a percepção de que apenas o antipetismo seria suficiente para manter o eleitorado unido. Segundo ele, a falta de administração política das diversas facções que compõem esse campo ficou evidente na fala de Michelle Bolsonaro, que trouxe à tona uma pauta feminista e a insatisfação de grupos evangélicos que não foram consultados no processo de construção da chapa.
“Me parece que falta política interna do Flávio para entender as divisões existentes no bolsonarismo e costurar essas alianças”, disse Barreto.
O especialista concluiu que, embora Flávio Bolsonaro tenha um piso alto de votos, esse piso pode se converter em teto, tornando sua candidatura insuficiente. Nesse contexto, Barreto avaliou que as condições objetivas estão sendo criadas para que uma terceira candidatura ganhe espaço a partir do início oficial da campanha, em agosto.
“A gente está criando condições para que as duas candidaturas principais falem mais dos seus limites do que das suas possibilidades, e isso abre uma janela para o brasileiro considerar outros nomes”, afirmou.
Fonte: Cnn Brasil




