
O advogado Elson Marcelino da Silva Júnior, responsável pela defesa do empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, rejeitou o termo “estratégia” ao classificar a decisão de abandonar o júri do réu nesta terça-feira (21). Em entrevista exclusiva ao e ao lado dos advogados Larice Silva e Gabriel Gouvea, que completam a banca defensiva, ele afirmou que o objetivo da equipe se resume a buscar um “julgamento justo”. O réu responde pelo feminicídio de Thays Machado e pelo homicídio qualificado de Willian César Moreno, ocorridos em 2023, em Cuiabá.
“Não é estratégia. A ‘estratégia’ é poder fazer da melhor forma possível a defesa. Se você me perguntar se a defesa teria, hoje, condições de fazer um júri digno: não, não teria. Nós abandonamos porque a juíza não permitiu que a defesa tivesse uma forma digna de fazer o seu trabalho”, declarou Elson, ao citar a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, responsável pelo caso.
Rodinei Crescêncio/RDNews
Os advogados Gabriel Gouvea, Larice Silva e Elson Marcelino da Silva Júnior
O grupo abandonou o júri após ter mais um pedido de adiamento negado pela magistrada, embora a sessão já tivesse sido remarcada do dia 7 para 21 de julho. Os advogados alegam cerceamento de defesa sob o argumento de que não tiveram tempo suficiente para analisar os 109 gigabytes de provas digitais, além de afirmarem que não tiveram acesso à totalidade das provas.
“Estratégia seria se eu entrasse com um atestado médico. Estratégia seria eu cair no meio do plenário fingindo que estou desmaiando. O nosso não; o nosso tem alicerce, tem base, escora, fundação”, completou Elson. “Foi a única saída para um julgamento justo”, acrescentou Gabriel.
Integrigade das provas
Os advogados colocaram em xeque a integridade dos dados extraídos dos celulares de Thays e Willian como provas oficiais do processo. Segundo Gabriel Gouvea, há registro de troca de mensagens entre as vítimas três horas após o crime, o que levantaria questionamentos sobre uma possível interferência de terceiros no material. “No mínimo, a gente precisa saber por que isso aconteceu para que eu possa efetivamente demonstrar a higidez probatória”, disse.
O questionamento já havia sido rebatido pela promotora de Justiça Élide Manzini de Campos, que atua na acusação. Ela afirmou que a alegação da defesa “não procede” e reforçou que o ponto já foi devidamente esclarecido nos autos do processo. “O celular da Thays estava três horas a mais. É uma questão do fuso horário do celular”, declarou mais cedo neste mesmo dia.
“Fragilidade emocional” do réu
Segundo os advogados, Carlinhos Bezerra está em um visível estado de “fragilidade emocional”, o que teria motivado o pedido de instauração do incidente de insanidade mental. Questionados sobre a medida, eles responderam que não se trata de um caso com a necessidade de curador para o réu ir e vir. “Nós queremos aferir a alteração psicossocial, psicoemocional e psíquica do réu relacionada ao fato”, afirmou Elson. “É uma tragédia que ocorreu e um peso que vai ser carregado por ele, infelizmente, até os seus últimos dias de vida”, arrematou.
A defesa alegou ainda possuir o laudo de um dos “melhores psiquiatras forenses do Brasil”, atestando que Carlinhos precisa, sim, de intervenção médica. Segundo os advogados, foi o parecer deste mesmo profissional que fundamentou a decisão que concedeu a prisão domiciliar ao réu.
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No detalhe, Carlinhos Bezerra, que é réu pelo feminicídio de Thays Machado e homicídio de William Moreno
O grupo de defesa também insinuou haver interesse da acusação em dificultar o acesso à totalidade das provas. “A defesa sabe muito bem o que eles estão ganhando; a defesa sabe onde eles querem chegar. Só que, quando a sociedade olha e vê a defesa buscando [as provas], parece que a defesa está querendo ganhar tempo”, disse Elson. “Qual a vantagem para o cliente em ganhar tempo, se não há um pedido de liberdade na mesa?”, questionou.
O julgamento pelo Tribunal do Júri de Cuiabá foi remarcado, pela segunda vez, para o dia 31 de julho.
Histórico de recursos
Ao longo do processo, a defesa de Carlinhos apresentou diversos recursos, tentando inclusive transferir o julgamento para fora de Cuiabá, no intuito de adiar o júri. Em maio, a Turma de Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) negou o pedido de desaforamento.
Na semana passada, a defesa de Carlinhos tentou novamente transferir o julgamento pelo Tribunal do Júri de Cuiabá para outra cidade ou estado. No entanto, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou o pedido.
Já na última sexta-feira (17), a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, negou outro pedido da defesa que solicitava a instauração de incidente de insanidade mental para Carlinhos.
Em sua decisão, a juíza entendeu que não há dúvida razoável sobre a capacidade mental do réu. Ela também considerou que o pedido foi apresentado fora do momento adequado e visava apenas atrasar o andamento do processo.
No domingo (19), a defesa tentou ainda um recurso alegando de cerceamento de defesa por supostas falhas na comunicação de processos vinculados ao acusado e “falta de tempo” para analisar um volume de 109 gigabytes de provas digitais. Mais uma vez, a juíza Mônica Catarina negou e pontuou: “Não se cuida, na espécie, de prazo exíguo ou insuficiente, mas de intervalo mais do que razoável para o exame técnico do conteúdo pela equipe de defesa, habilitada e assistida por profissionais capacitados para tanto”.
O Júri, inicialmente marcado para acontecer no dia 7 de julho, já havia sido remarcado para 21 de julho por esta mesma razão.
Nesta segunda-feira (20), a defesa tentou, por fim, o quarto recurso em menos de uma semana. Desta vez, alegou a pendência de análise de um habeas corpus. No entanto, veio também a quarta derrota: o juiz convocado Francisco Alexandre Ferreira Mendes Neto, da Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), negou o pedido por concluir que não estavam presentes os requisitos para a concessão da liminar, pois “a simples existência do recurso pendente não suspende o andamento da ação penal nem impede a realização do júri”.
Relembre o caso
A ex-namorada de Carlinhos, Thays Machado, e o namorado dela, William César Moreno, foram mortos a tiros na tarde do dia 18 de janeiro de 2023, no bairro Consil, próximo à Avenida Historiador Rubens Mendonça (Avenida do CPA), em Cuiabá. Thays estava em frente ao Edifício Residencial Monet, onde a mãe dela morava, para entregar uma chave à genitora. William a acompanhava.
Conforme publicado, Thays estava em um relacionamento com Willian há cerca de um mês quando, na madrugada do dia do crime, ela foi ao aeroporto para buscar o atual namorado. Na data, os dois teriam sido abordados por Carlinhos, que os ameaçou com uma arma de fogo.
Ela ligou para o 190 e denunciou a situação. Na ligação, ela foi orientada a procurar a Delegacia da Mulher e foi solicitado que entrasse em contato, “caso fosse necessário”. De acordo com as investigações, Thays não procurou a Delegacia da Mulher para formalizar a denúncia e pedir medida protetiva.
Um pouco mais tarde, por volta das 17h daquele dia, ela e Willian Moreno foram mortos na calçada do edifício onde a mãe de Thays morava.
Horas depois, Carlinhos foi preso em uma chácara da família e, durante interrogatório na Polícia Civil, confessou o crime. Ele argumentou que sofre de diabetes e que estava em “estágio de neuropatia”, o que lhe causou o desequilíbrio emocional e que isso teria motivado o crime.
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Fonte: RD News




