Todo 25 de julho, palavras como resistência, força, ancestralidade e representatividade voltam a circular quando falamos de mulheres negras. Todas são necessárias. Mas tenho pensado que precisamos acrescentar outras: poder, transformação e prosperidade.
Porque não basta reconhecer que mulheres negras resistem. Também precisamos nos incomodar com o fato de ainda precisarem resistir tanto. E nos perguntar: quantas conseguem chegar aos lugares onde orçamento, políticas, prioridades e narrativas que determinam nossas vidas são definidos?
O 25 de julho não nasceu porque mulheres negras foram lembradas por um dia. Nasceu porque elas se organizaram para não continuar sendo esquecidas nos outros 364. Em 1992, mulheres negras latino-americanas e caribenhas reunidas em Santo Domingo, na República Dominicana, fortaleceram uma articulação política que fez da data um marco de luta. No Brasil, desde 2014, o mesmo 25 de julho é também o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
E nós, em Mato Grosso, temos um motivo a mais para não passar por essa data distraidamente: a mulher que dá nome a essa data nacional construiu sua história justamente neste território.
Tereza viveu no século XVIII e liderou o Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé. Os registros históricos mostram uma mulher que não apenas resistiu à escravidão, mas governou, articulou decisões, organizou a vida política, econômica e social de uma comunidade formada por pessoas negras e indígenas. Há relatos, inclusive, de um sistema de decisão semelhante a um parlamento.
Por isso, gosto de pensar em Tereza para além da resistência. Ela não apenas enfrentou um mundo que lhe negava liberdade, mas sim participou da construção de outro modo de viver. Ela pensou, articulou, decidiu, liderou e organizou.
O que fizemos com essa herança política? A história de Tereza permanece tão atual porque, séculos depois, mulheres negras continuam chegando a lugares onde durante muito tempo disseram que não estaríamos. E não passamos por esses lugares sem mexer neles. É por isso que representatividade importa tanto. Ela amplia o campo do possível, interfere nos imaginários e também nas escolhas. Afinal, escolha nenhuma nasce no vazio. Escolhemos também a partir do que aprendemos a enxergar como possível para nós.
Quem aprendemos a enxergar como intelectual, cientista, autoridade, liderança, produtora de conhecimento? Capacidade e talento nunca nos faltaram.
Em Mato Grosso, mulheres negras produzem conhecimento na educação, comunicação, saúde, ciências humanas, letras, artes, ciências agrárias, exatas, gestão pública, cultura, territórios quilombolas e em diferentes espaços de produção de saber. Estão contribuindo para o desenvolvimento científico, econômico, social, cultural, político e histórico deste Estado.
Mas chegar basta? Quantas entram e quantas chegam aos espaços onde recursos, prioridades e políticas são decididos? Não queremos apenas estar na fotografia da diversidade. Queremos participar da construção daquilo que essa fotografia pretende representar.
Visibilidade também é disputa de poder. Não porque aparecer seja suficiente, mas porque quem tem sua voz reconhecida também participa da produção dos sentidos, das referências e do mundo que aprendemos a considerar possível.
Para mim, abrir caminho nunca pode significar chegar primeiro e permanecer sozinha. Abrir caminho é fazer com que a caminhada de quem vem depois seja um pouco menos improvável. Precisamos também ampliar aquilo que enxergamos quando olhamos para uma mulher negra. Somos resistência, sim. Mas somos também inteligência, ciência, criatividade, humor, afeto, beleza, liderança, desejo, cuidado, coragem, amor e futuro.
Tereza de Benguela abriu caminhos neste território muito antes de nós. Mulheres negras continuam fazendo isso hoje. E o 25 de julho nos deixa algumas perguntas: Quantas Terezas estão produzindo Mato Grosso agora? Estamos conseguindo enxergá-las? E que caminhos ainda precisamos abrir para que nossas meninas não tenham apenas mulheres negras extraordinárias para admirar, mas cresçam achando absolutamente normal encontrar mulheres negras em todos os lugares onde desejarem estar? Talvez seja essa a fissura mais bonita: um dia, não precisar estranhar a nossa presença e a nossa potência negra.
*Julianne Caju é cuiabana de “tchapa e cruz”, cria do CPA, jornalista, professora, mestra em Educação pela UFMT e doutora em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT.
Fonte: Pnb Online




