
REPRODUÇÃO
A estudante e modelo Stephany Leal publicou um vídeo nas redes sociais nesta sexta-feira (14) para comentar a condenação do empresário Alexandre Franzner Pisetta a 11 anos e três meses de prisão por estupro e perseguição. Durante o relato, ela contou que conversou recentemente com outra jovem que, segundo afirmou, teria vivido situações semelhantes às que ela própria denunciou. Stephany disse que a conversa fez com que percebesse semelhanças no comportamento atribuído ao empresário em diferentes relacionamentos e também ajudou a mudar a forma como enxergava a própria história.
Logo no início do vídeo, a modelo explicou que havia publicado um registro de outra garota e que, depois disso, as duas conversaram. Segundo Stephany, a jovem teria 18 anos quando começou a se relacionar com Pisetta e relatado episódios que, na avaliação dela, foram até mais graves do que aqueles que enfrentou. A modelo afirmou que não pretende revelar a identidade da mulher porque ela não autorizou a divulgação de seu nome.
“Deixei esse print pra vocês, os stories de uma outra garota que já tinha passado por tudo que eu passei. Ontem a gente trocou uma figurinha, a gente conversou um pouco e ela me contou tudo o que aconteceu com ela e eu acho que foi até pior do que eu passei. A menina também tinha 18 anos quando começou a se envolver com ele e a gente vê que ele tem um tipo que é muito específico, são sempre meninas que são muito novas, meninas que têm a família um tanto quanto desestruturada e aí ele fala pras meninas que as meninas não precisam estudar, que as meninas não precisam trabalhar. Graças a Deus, eu sempre bati o pé e falei: não, vou estudar, vou estudar. E agora, graças a Deus, já tô terminando minha faculdade, tô indo pro último semestre e já tô fazendo mais uma também, inclusive. Então a gente vê que é um ciclo.”
Na sequência, Stephany relatou que durante muito tempo se responsabilizou pelo que havia acontecido com ela. Segundo a modelo, como o empresário era visto de maneira positiva por outras pessoas, ela chegou a acreditar que o problema poderia estar nela. O contato com outras mulheres, afirmou, fez com que passasse a interpretar a situação de outra maneira.
“Durante muito tempo, gente, vou falar pra vocês, durante muito tempo mesmo, eu fiquei me sentindo culpada. Eu fiquei assim: não, é minha culpa, porque ele era uma pessoa boa, todo mundo gostava dele e comigo ele fez isso. Eu devo estar muito errada, eu devo ser um cão. Eu não fui a única e essa garota também não. Foram várias que passaram por coisas iguais, o que eu passei ou piores. E na época essa menina também foi na delegacia, essa menina também fez uma medida protetiva e não aconteceu nada também. Ela denunciou, também tinha, né, foi com a boca cortada, foi, enfim, cheia de hematomas e não aconteceu nada com ela, com ele na época.”
Stephany também afirmou que o que mais chamou sua atenção na conversa foi a suposta repetição de comportamentos e falas. Ela disse ter reconhecido, no relato da outra jovem, situações que considera semelhantes às que viveu, incluindo referências à influência da família e a uma suposta minimização das consequências de uma prisão.
“E o mais incrível de tudo isso é ver como a pessoa age da mesma maneira, em diferentes casos ela age igual. Ele, no caso, sempre falando do poder que a família tinha, porque meu cunhado é isso, minha irmã é aquilo, meu tio é tarará, minha mãe é não sei quem, não sei quem, e falava as mesmas coisas: ‘se eu for preso eu fico 90 dias’. Então, assim, a gente tem muito que agradecer, as mulheres temos muito que agradecer hoje, porque esses 90 dias ele saiu bem caro, né? Esses 90 dias já estão indo aí pra mais de sete meses. Então demorou muito, mas teve Justiça. Eu nunca quis vingança, eu sempre quis só Justiça.”
A modelo também aproveitou o vídeo para responder a críticas que, segundo ela, costuma receber nas redes sociais. Stephany afirmou que já foi acusada de ter interesse financeiro no relacionamento e questionou onde estariam os bens que, segundo essas críticas, teriam sido dados a ela pelo empresário. Ela disse ainda que, na época em que estava com Pisetta, sequer possuía carteira de habilitação.
“Eu sei que vai ter gente falando merda, sempre tem. Tem gente que fala que eu tava extorquindo ele, que ele me deu carro, que ele me deu apartamento, e eu fico assim: cadê, cadê, cadê? Porque quando eu tava com ele, nem CNH eu não tinha. Então, além do ciclo ser o mesmo, da pessoa agir da mesma maneira, da pessoa usar da influência dos outros, dos amigos apoiarem, dos amigos passarem a mão na cabeça, né, eu digo que ele é tão lixo como ele é hoje porque tem mais um monte de homem lixo do lado dele, que apoia ele, que incentiva, que acha bonito.”
Stephany afirmou ainda que acredita que existam outros casos dos quais ela sequer tomou conhecimento. Ela voltou a mencionar o relato que recebeu recentemente e disse que a descoberta foi importante para compreender que não havia sido a única mulher a passar por situações semelhantes. A modelo também questionou os julgamentos feitos contra mulheres que tiveram relacionamentos com o empresário.
“E gente, pelo amor de Deus, sete anos, sete anos é sete anos que aconteceu isso com uma outra menina. Isso é o que a gente sabe, né? Tem muita coisa que a gente nem imagina que aconteceu. Eu não imaginava que isso tinha acontecido, eu não imaginava que essa outra menina tivesse passado por essas coisas e eu ficava assim na minha cabeça: não, o problema sou eu, o problema sou eu. Hoje eu entendo que não, que o problema nunca foi sobre mim, nunca foi sobre mim, sempre foi sobre ele, sobre as atitudes dele e sobre o que ele faz. E aí quem vier falar qualquer coisa sobre ‘ai, porque você isso, porque você aquilo’, então todas as mulheres que passaram na vida de um cara de 43 anos são todas erradas? Todas tão erradas pra matar certinho?”
No vídeo, a modelo também afirmou que considera especialmente grave o julgamento direcionado às mulheres jovens que passaram por relacionamentos abusivos. Segundo ela, muitas acabam sendo responsabilizadas pelo comportamento do homem.
“Pô, então a gente vai ter que fazer assim, alguma coisa pras mulheres nascerem certas, porque não é possível que um monte de menina de 18, 19, 20 anos passaram pela mão dele e são todas putas, são todas vagabundas, são todas cadelas, são todas as maiores baixarias que vocês possam imaginar. Não dá, né? Não tem como engolir. E eu engoli essa história, eu achei que fosse isso.”
Na parte final do vídeo, Stephany deixou uma orientação para mulheres jovens que acompanham seu perfil. Ela afirmou que pretende continuar estudando para conquistar independência e não depender financeiramente de outras pessoas. A modelo reconheceu que relacionamentos abusivos podem atingir mulheres de diferentes origens, mas disse considerar que a falta de oportunidades pode tornar a situação ainda mais difícil.
“Eu só quero dizer pra vocês que duas coisas, duas coisas. Muita menina novinha que me segue, menina da minha idade também. Então a primeira coisa é: estudem, estudem, estudem e estudem, porque a vida, ela é muito dura com mulheres que não têm estudo e com mulheres que não vêm de boa família. Acho que pra meninas que vêm de boa família, que eu digo gente, é uma família estruturada, família que pode te dar um estudo, pode te dar um incentivo, até pra quem tem isso é difícil, porque eu tenho amigas que têm uma família muito estruturada e passam por relacionamentos abusivos, né? Então é difícil pra todo mundo, só que pra aquelas que não tiveram tantas oportunidades na vida é muito mais difícil.”
Stephany contou que atualmente tem se dedicado aos estudos e relacionou essa decisão à busca por independência pessoal. Segundo ela, a intenção é não voltar a depender de outra pessoa para conduzir a própria vida.
“Então estudem, gente, aproveitem a juventude de vocês, seus 18, 19, 20 anos pra estudar. É o que eu tô fazendo hoje. Eu tô estudando tanto que vocês não têm noção. Tem dias que eu durmo fazendo conta, que eu durmo assim: meu Deus do céu, de tanto que eu tô estudando, pra nunca mais precisar ficar na mão de ninguém.”
Ao concluir o depoimento, a modelo afirmou que considera a condenação uma resposta não apenas para o caso dela, mas também para outras mulheres que passaram por situações de violência e não tiveram coragem de falar. Ela disse que não buscava vingança e que hoje se considera alguém que conseguiu superar a condição de vítima.
“O que eu falo pra vocês é: demora, demora, mas a Justiça, ela sempre vem, ela sempre vem, de alguma forma ou de outra. E eu digo que aí não foi nem sobre mim, não foi nem pra mim, sabe? Foi sobre várias outras meninas que passaram pelo que eu passei e até falaram, né? Outras não tiveram coragem de falar. E gente, é terrível, é terrível. Eu escutei a menina falando as coisas pra mim. Não vou falar o nome dela, até porque ela nem pediu pra mim falar alguma coisa sobre, mas é só pra vocês fazerem uma alusão sobre o que aconteceu com ela e o que aconteceu comigo.”
Stephany também afirmou que a repetição dos relatos teria mostrado a ela um padrão de comportamento. Segundo a modelo, algumas frases utilizadas pelo empresário em diferentes situações seriam semelhantes às que ela própria ouviu durante o relacionamento.
“Então a pessoa usa as mesmas palavras, faz tudo que faz e depois volta: ‘não, eu jamais queria brigar com o meu amor. Você acha que eu vou brigar com o amor da minha vida? Não, porque você é o amor da minha vida’. E acho que, assim, o mais triste, gente, é saber que já tinha acontecido, que não aconteceu nada e que comigo também não ia acontecer nada. Por isso que tinha aquela liberdade de falar as coisas, de fazer as coisas, né? Porque ele sabia que não ia acontecer nada.”
A modelo ainda afirmou que procurou a polícia em maio do ano passado e levou materiais que, segundo ela, poderiam comprovar o que havia ocorrido. Para Stephany, a exposição pública do caso foi determinante para que a situação tivesse outro desdobramento.
“A gente sabe também que não teria acontecido nada comigo, aliás, que não aconteceu lá em maio, quando eu fui na delegacia e denunciei e levei foto, levei print, levei vídeo, levei tudo, tinha hematoma inclusive. Não aconteceu nada naquele dia e não teria acontecido se eu não tivesse vindo pra cá, se eu não tivesse me exposto, se eu não tivesse exposto a minha vida, se eu não tivesse feito todo o auê que eu fiz na internet.”
Por fim, Stephany disse estar satisfeita com a vida que vem construindo e afirmou que considera o episódio uma parte superada de sua trajetória.
“Mas amém, são águas passadas. Estou muito feliz com a vida que eu estou construindo pra mim e acho que é isso que importa, né? É o que eu disse: existem vítimas e existem pessoas que foram vítimas. Eu fui uma vítima de violência, hoje eu já não sou mais, então tá tudo bem.”
CONFIRA:
CONDENAÇÃO
Alexandre Franzner Pisetta foi condenado a 11 anos e três meses de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de estupro e perseguição contra Stephany. A sentença foi proferida pela juíza Tatyana Lopes de Araújo Borges, da 2ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá.
Além da pena, a Justiça determinou o pagamento de R$ 15 mil de indenização mínima à vítima e manteve a prisão do empresário, negando o direito de recorrer em liberdade.
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