Dados recentes divulgados pelo Boletim Epidemiológico do Programa Vida no Trânsito (PVT), da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, acenderam um alerta vermelho que os ortopedistas e traumatologistas testemunham diariamente nos prontos-socorros e centros cirúrgicos: o trânsito da capital mato-grossense tornou-se um dos principais geradores de trauma de alta energia, tendo os motociclistas como suas maiores vítimas.
Segundo o levantamento, das 104 mortes no trânsito registradas em Cuiabá em 2024, 69% foram de motociclistas. Mais do que estatísticas, esses números representam homens e mulheres em sua maioria jovens e economicamente ativos (83% das vítimas fatais tinham entre 20 e 59 anos) que têm suas vidas ceifadas ou drasticamente alteradas.
Para a ortopedia, o trauma motociclístico tem peculiaridades graves, pela falta de blindagem externa do veículo, o corpo do condutor absorve diretamente a energia do impacto. O resultado é uma rotina de lesões complexas que chegam ao Hospital Municipal de Cuiabá (HMC) e a outras unidades de urgência, com fraturas expostas e cominutivas de tíbia, fêmur e bacia; lesões articulares graves e amputações, muitas vezes exigindo múltiplas intervenções cirúrgicas; síndromes compartimentais e lesões neurovasculares, com alto risco de sequelas definitivas ou perda do membro.
Cerca de dois terços das vítimas fatais faleceram no próprio local do acidente, o que demonstra a extrema violência dos impactos. E para os sobreviventes, a jornada costuma envolver longos períodos de internação, uso de fixadores externos, reabilitação prolongada e, frequentemente, o afastamento definitivo ou temporário do trabalho.
O boletim aponta que o excesso de velocidade (presente em 30,8% das mortes), a condução sem Habilitação (30% dos condutores não tinham CNH) e a combinação de álcool e direção — concentrada nas madrugadas e finais de semana nas principais avenidas da capital — são os grandes vilões dessa realidade.
Como especialista no tratamento de sequelas e na reconstrução do sistema musculoesquelético, reforçamos que a melhor cirurgia ortopédica é aquela que não precisa acontecer. A prevenção do trauma é a medida mais eficaz para salvar vidas e preservar a capacidade funcional dos cidadãos.
Então, é importante salientar que a educação e a conscientização no trânsito são fundamentais. A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, regional Mato Grosso SBOT-MT trabalha anualmente a campanha Maio Amarelo, que atua levando dados e relatos reais sobre as consequências do trauma para a sociedade, com foco nos condutores de motocicletas e entregadores parceiros. E reafirmamos nosso compromisso de estar na linha de frente não apenas do tratamento, mas também da preservação da vida e da integridade física dos mato-grossenses.
Jhone Pereira é médico, especialista em ortopedia e traumatologia, cirurgia da mão e microcirurgia e membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia Regional MT
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Fonte: Pnb Online





