O documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, realizado com apoio do Núcleo de Produção Digital (NPD) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Câmpus do Araguaia, conquistou dois Kikitos na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado. O filme recebeu os prêmios de Melhor Montagem e Júri Popular, na categoria de curtas-metragens brasileiros, consolidando a produção audiovisual realizada no interior de Mato Grosso e projetando nacionalmente o trabalho de extensão desenvolvido pela Universidade.
Dirigido por Gilson Moraes da Costa e Clea Torres, com codireção do cineasta indígena xavante Divino Tserewahú, o documentário foi selecionado entre quase mil curtas-metragens inscritos de todo o Brasil. Na mostra competitiva, foram escolhidos 12 trabalhos, entre ficções e documentários, de diferentes regiões do país.
Para Gilson Costa, diretor do filme e coordenador do NPD-Araguaia, a conquista representa o amadurecimento de um trabalho desenvolvido pela Universidade ao longo de 12 anos. “Eu acho que esse prêmio representa, de alguma maneira, esse amadurecimento do trabalho do NPD”.
Segundo o professor, o reconhecimento também está relacionado à trajetória construída pelo Núcleo desde sua criação, em 2014. O projeto de extensão atua na formação de profissionais, na produção audiovisual e na difusão das obras, estabelecendo parcerias com realizadores, artistas, movimentos sociais e comunidades da região.
“Nesses 12 anos, o NPD vem trabalhando tanto na área de formação de mão de obra no audiovisual, como na produção de obras audiovisuais e também na veiculação, na difusão”.
Extensão e formação
O NPD-Araguaia é um projeto de extensão da UFMT ligado ao curso de Jornalismo. Para Gilson, a atuação do Núcleo materializa um dos principais objetivos da extensão universitária: aproximar a Universidade da comunidade externa e criar condições para que conhecimentos, equipamentos e experiências produzidos no ambiente acadêmico sejam colocados a serviço da sociedade.
“O objetivo maior dele é estabelecer relações com a comunidade externa, com realizadores, com artistas, com movimentos sociais, sempre nessa perspectiva da produção audiovisual”, explica o diretor.
No caso de “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, a parceria começou a partir da proposta apresentada por Clea Torres, egressa do curso de Jornalismo da UFMT, jornalista e produtora audiovisual. O NPD participou como parceiro, oferecendo suporte técnico, equipamentos, logística, acompanhamento e conhecimento especializado.
A atuação do Núcleo também envolve a formação de novos profissionais para o setor. Somente em 2025, foram oferecidos dez módulos de cursos, contemplando diferentes etapas da produção audiovisual, do roteiro à pós-produção. Mais de 200 pessoas participaram das atividades.
“A gente faz parcerias também para oferecer cursos. Ano passado, por exemplo, nós oferecemos dez módulos de curso, começando de roteiro a pós-produção. Então, foi o ano todo, a gente atendeu mais de 200 pessoas, ofertando esses cursos de capacitação”, completou.
Para Gilson, o trabalho de formação está diretamente relacionado à consolidação da produção audiovisual na região, já que muitos dos participantes passam posteriormente a atuar em produções profissionais.
Formação que gera novos realizadores
A trajetória de Clea Torres é apontada pelo coordenador do NPD como exemplo dessa conexão entre formação, extensão e produção. Além de egressa do curso de Jornalismo da UFMT, ela foi bolsista do Núcleo e participou das atividades desenvolvidas pelo projeto.
Clea destaca que “Divino: Sua Alma, Sua Lente” nasceu de uma construção coletiva, envolvendo diretamente o povo Xavante da Terra Indígena Sangradouro, profissionais do audiovisual que atuam no interior de Mato Grosso e estudantes da UFMT vinculados ao NPD.
“Esse filme foi um documentário realizado de maneira coletiva, com várias frentes: o povo Xavante da Terra Indígena Sangradouro, que esteve envolvido em todas as etapas; uma equipe diversa de profissionais que atua com audiovisual no interior do estado; e os alunos da UFMT, por meio do Núcleo de Produção Digital”, disse.
Para a diretora, a premiação em Gramado evidencia a força das narrativas produzidas a partir do próprio território e o crescimento do cinema realizado longe dos grandes centros. “Esse reconhecimento no Festival de Gramado evidencia a potência das narrativas do povo Xavante e o amadurecimento do cinema realizado no interior do estado”.
Clea também ressalta a importância da parceria com o NPD para a produção audiovisual independente no Araguaia. “O Núcleo de Produção Digital da UFMT é, hoje, o nosso principal parceiro para produções audiovisuais independentes no Araguaia. Essa parceria com o professor Gilson foi fundamental.”
Cinema indígena
O documentário acompanha a trajetória de Divino Tserewahú, cineasta Xavante que há 35 anos utiliza o audiovisual para registrar a cultura, o cotidiano e as transformações de seu povo. A narrativa parte da chegada da primeira câmera VHS à comunidade de Sangradouro e acompanha a construção de sua relação com o cinema.
Divino também atua na formação de jovens indígenas e utiliza o audiovisual como instrumento de preservação da memória, resistência e autodeterminação.
A proposta do filme é construída a partir do próprio olhar indígena, valorizando conhecimentos, experiências e formas de representação da comunidade Xavante.
A participação do NPD nesse processo dá continuidade a uma relação construída há mais de uma década entre o projeto de extensão e os povos indígenas da região. Ao longo desse período, o Núcleo desenvolveu oficinas e estabeleceu parcerias para apoiar produções audiovisuais realizadas com diferentes comunidades.
Cena audiovisual do Araguaia
A conquista em Gramado também reforça uma transformação no cenário cultural de Barra do Garças e do Médio Araguaia. De acordo com Gilson, o trabalho desenvolvido pelo NPD contribuiu para a criação e consolidação de uma cena audiovisual local.
“Mostra que uma universidade, um projeto de extensão pode, de fato, alterar uma realidade, criar uma referência local. Hoje, quer queira quer não, Barra do Garças é uma referência de produção audiovisual no Estado.”
O professor destaca que diversos profissionais que passaram pelo projeto hoje trabalham em diferentes áreas do audiovisual, desenvolvem projetos próprios e acessam editais de financiamento.
“Muitas pessoas que passaram pelo projeto de extensão hoje são realizadores, trabalham nas diferentes áreas do audiovisual, acessam projetos, acessam editais.”
Para Gilson, essa consolidação é resultado de um processo iniciado em 2014, quando o NPD foi implantado em Barra do Garças por meio de uma parceria entre a UFMT e o então Ministério da Cultura. Ele também reconhece a importância da atuação do professor José Pessoa, que à época era pró-reitor da Universidade, para a implantação do Núcleo na região.
Desde então, o NPD passou a participar de produções realizadas no Araguaia e também de projetos nacionais que tiveram a região como cenário.
Fonte: Pnb Online





