O Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso, inaugurado em dezembro do ano passado pelo ex-governador Mauro Mendes (União), recebeu apenas 794 pacientes entre janeiro e junho de 2026, de acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS) obtidos pela reportagem do PNB Online. Os números indicam que o hospital, gerido pela Sociedade Israelita Albert Einstein, ainda não ajudou a desafogar os problemas de fila de espera em Mato Grosso.
A quantidade de pacientes internados contrasta com os valores recebidos pelo Hospital Central. A unidade recebeu R$ 52,6 milhões do governo estadual. Deste valor, R$ 24 milhões foram para a fase pré-operacional e R$ 28 milhões para o custeio mensal de fevereiro. O governo empenhou, ao todo, R$ 276 milhões para o hospital.
Os dados apontam para uma produção extremamente baixa do Hospital Central, com uma média de 3,13 internações por dia. O número é bem distante da capacidade do hospital. O Plano Operativo do Contrato de Gestão projeta um volume de 780 saídas hospitalares de enfermaria (565 na clínica adulta e 215 na pediátrica) ao atingir a maturidade operacional. Além disso, a capacidade total do hospital prevê quase 2.000 internações mensais ao considerar a totalidade das áreas e leitos.
A produção executada no período (~100 a 130 internações/mês) representa aproximadamente 13% a 16% da meta projetada para enfermarias (780 saídas/mês), volume bem abaixo do previsto. O contrato também exige uma taxa de ocupação mínima de 85% para leitos clínicos e 90% para leitos de UTI, meta que a unidade ainda está distante de atingir.
Para efeitos de comparação, as internações no Hospital Central são muito menores do que as registradas no Hospital Municipal de Cuiabá, unidade menor em comparação ao novo hospital, intitulado por políticos como o “maior de Mato Grosso. No HMC, foram registradas 10.263 internações no período.
Em hospitais ainda mais menores, como o antigo Pronto Socorro de Cuiabá, foram registradas mais internações do que no Hospital Central, com 3.732 internações. No Hospital São Benedito, foram 1401 internações. No Metropolitano, em Várzea Grande, foram 3.066 internações. Até mesmo a Santa Casa, de menor capacidade, realizou 3.230 internações.
Contrato vantajoso para o Albert Einstein
Fontes ouvidas pela reportagem indicam que, em mais de 6 meses de funcionamento, o Albert Einstein se aproveita de duas “brechas” no contrato com o Governo do Estado de Mato Grosso para produzir menos do que outros hospitais locais. O contrato com o governo é investigado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
A primeira brecha refere-se a previsão, em contrato, de que o Hospital Central está desde abril de 2025 recebendo do governo de Mato Grosso, sem precisar prestar contas de sua produção. Este período deixou de valer após meados de março de 2026, com os 11 meses contados após a assinatura do contrato, em abril de 2025.
Uma segunda brecha, porém, é ainda mais financeiramente interessante ao hospital. O governo paga R$ 34,9 milhões mensais à unidade hospitalar. Deste total, 90% é repassado sem que o hospital tenha que comprovar qualquer tipo de produção e outros 10% são repassados mediante comprovação de produção, segundo a cláusula 6.1.5.1 do contrato e o 6.1.1 e 6.1.5 do Contrato de Gestão nº 090/2025/SES-MT.
O contrato é extremamente vantajosa para o Albert Einstein em comparação com outros hospitais que recebem do governo estadual: no caso das santas casas e de entidades filantrópicas, por exemplo, o pagamento é apenas por produção, sendo 60% pré-fixado 40% por meta se atingir acima de 90% de resultado.
Nos casos dos hospitais totalmente públicos, como Pronto-Socorro Municipal de Várzea Grande e Hospital Municipal de Cuiabá, os hospitais também precisam comprovar produção.
Outro lado
A reportagem procurou a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Saúde, mas o órgão não enviou nenhuma resposta. Ao invés disso, a assessoria da SES publicou um release informando que 2 mil cirurgias foram realizadas em 7 meses. A SES não revelou a origem dos dados, uma vez que a base legal dos números, prevista em contrato, devem ser os dados informados ao Ministério da Saúde.
Após a publicação da reportagem, a SES contestou os dados apresentados, afirmando que o Hospital Central registrou 1.218 internações entre janeiro e junho de 2026 — volume superior aos 794 relatados —, período em que a unidade passava por implementação gradual. A secretaria não apresentou, mais uma vez, a comprovação dos dados relatados.
Segundo a pasta, agosto foi o primeiro mês de funcionamento em plenitude, atingindo 73,2% de taxa total de ocupação dos leitos (95% na UTI Adulta, 88% na UTI Pediátrica e 70% nas enfermarias) e 505 cirurgias, alcançando a marca acumulada de 2 mil procedimentos no início de setembro. A SES ressaltou ainda que o Tribunal de Contas da União (TCU) arquivou por unanimidade a denúncia sobre o contrato de gestão (Acórdão nº 911/2026-Plenário), por ausência de indícios de irregularidades.
Sobre o modelo financeiro, a secretaria explicou que a divisão do repasse mensal (90% fixo e 10% variável) só passa a valer após o terceiro mês da Etapa Operacional 2 e que a parcela variável avalia indicadores de qualidade, e não apenas o volume de pacientes. Além disso, destacou que a estrutura de alta complexidade exige custos fixos contínuos independentemente da oscilação de demanda. Por fim, a pasta informou que a previsão de R$ 10,6 milhões em receita federal depende de habilitação e faturamento da produção no SUS, processo que aguarda aprovação do Ministério da Saúde após aval da CIB-MT, sendo o custeio atual mantido com 100% por recursos estaduais.
Fonte: Pnb Online





