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Vorcaro interferia em reportagens do Metrópoles e aprovava conteúdos antes da publicação

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Mensagens e documentos obtidos pela Polícia Federal (PF) no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam que ele tinha influência direta sobre conteúdos publicados pelo portal Metrópoles. Segundo reportagem da revista Fórum, matérias relacionadas ao setor financeiro e ao Banco Master eram encaminhadas previamente ao empresário, que sugeria mudanças, solicitava cortes e interferia na abordagem dos textos antes da publicação.

Os registros apontam que Vorcaro não se limitava a sugerir pautas de seu interesse. Ele também editava trechos, pedia a retirada de informações consideradas inconvenientes e participava da definição da linha editorial de reportagens sensíveis.

A relação teria se consolidado em 2024, quando o Banco Master firmou um contrato publicitário com o portal no valor global de R$ 20 milhões. A partir desse acordo, as mensagens indicam a existência de um canal direto entre o empresário e a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan.

Mensagens apontam alterações em reportagens

De acordo com os registros periciais citados pela publicação, pelo menos 14 reportagens foram encaminhadas antecipadamente a Vorcaro para leitura e validação. Desse total, ao menos 11 teriam sofrido alterações diretas, cortes ou reescritas em atendimento a solicitações explícitas do empresário. As conversas também registrariam duas matérias publicadas a pedido direto do banqueiro.

O conteúdo das mensagens sugere que a participação de Vorcaro ultrapassava o contato habitual entre jornalistas e fontes ouvidas em reportagens, envolvendo interferências na versão final dos materiais.

Contrato publicitário de R$ 20 milhões

O acordo comercial entre o Banco Master e o Metrópoles teria sido firmado em 2024. Segundo a reportagem, o banco realizou um primeiro pagamento de R$ 1 milhão em junho daquele ano. Em julho, foi acertada uma transferência adicional de R$ 900 mil para financiar projetos de educação financeira vinculados a empresas do conglomerado Master, entre elas a seguradora Kovr e o banco digital Will.

O volume de recursos gerou questionamentos internos. Em uma das conversas citadas, a assessora Ana Matos teria comentado com Vorcaro: “Tá caro esse Metrópoles”. O empresário respondeu destacando a importância estratégica do portal.

Os registros também mencionam contatos entre Vorcaro e integrantes da direção do veículo, incluindo conversas sobre reportagens envolvendo o Banco Master e outras empresas.

Mensagens no dia da prisão

A influência atribuída ao empresário teria continuado até 17 de novembro de 2025, data em que Vorcaro foi preso pela Polícia Federal. Naquele dia, integrantes da direção do portal teriam enviado a ele versões preliminares de textos sobre a venda do Banco Master à empresa Fictor.

Conforme os registros descritos pela reportagem, após as alterações solicitadas pelo ex-banqueiro, a CEO Lilian Tahan respondeu por mensagem: “Publicada hahahaha”.

O episódio é apontado como um dos exemplos da dinâmica de revisão prévia de conteúdos por Vorcaro.

Portal nega vínculo entre publicidade e cobertura editorial

Questionada sobre o envio antecipado de reportagens, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes sobre o contexto de uma matéria é uma prática que adota com personalidades do meio empresarial, político e do Judiciário.

A executiva também negou que o contrato publicitário de R$ 20 milhões tivesse relação com a cobertura editorial. Como argumento, mencionou a publicação de reportagens sobre a situação de empresas ligadas ao empresário, incluindo o Banco Master, a Ambipar, a Fictor e a Oncoclínicas.

Sobre matérias relacionadas a Renato Gomes, diretor do Banco Central, Lilian afirmou que o tema ganhou relevância em razão da oposição dele à transação envolvendo o Banco Master e o BRB. Em relação a Ricardo Cappelli, declarou que o fundador do Metrópoles, Luiz Estevão, era crítico da aquisição do Master pelo banco estatal e havia fornecido análises técnicas sobre possíveis falhas nos balanços do BRB.

Autonomia editorial sob questionamento

Apesar das justificativas apresentadas pela direção do portal, as mensagens recuperadas pela Polícia Federal levantam questionamentos sobre a autonomia editorial do veículo e a possível influência de interesses comerciais sobre a produção jornalística.

A existência de um contrato publicitário, por si só, não comprova irregularidade editorial. No entanto, os registros descritos pela reportagem podem ajudar a esclarecer como as decisões sobre conteúdos jornalísticos eram tomadas e qual era o grau de participação do empresário na aprovação das matérias.

O caso integra as investigações relacionadas ao Banco Master e aos contatos de Vorcaro com diferentes agentes dos setores empresarial, político e institucional. Os fatos deverão ser avaliados à luz das provas reunidas pelas autoridades e das explicações apresentadas pelos envolvidos.

Interferência na cobertura política

A atuação de Daniel Vorcaro sobre o portal Metrópoles também teria alcançado reportagens relacionadas a integrantes do Banco Central e a adversários da operação de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal e citadas pela revista Fórum, o empresário buscava influenciar a abordagem de conteúdos que poderiam afetar seus interesses.

Em agosto de 2025, a direção do Metrópoles enviou a Vorcaro uma entrevista com o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, na qual Renato Gomes era mencionado. O ex-banqueiro sugeriu concentrar a reportagem em Campos Neto e reduzir o destaque dado a Gomes. A orientação foi seguida pelo portal.

Dias depois, ao receber o rascunho de um perfil intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”, Vorcaro pediu alterações no texto. Entre as sugestões, solicitou a retirada de um trecho sobre a situação financeira do banco e a inclusão de referências a supostas divergências internas no Banco Central.

O empresário também teria sugerido mudanças em uma reportagem sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC, pedindo a retirada da frase final do texto. De acordo com os registros apresentados pela publicação, as solicitações foram atendidas.

Pressão contra crítico da compra do Master

A interferência relatada também teria envolvido o noticiário político do Distrito Federal. Em agosto de 2025, Vorcaro demonstrou insatisfação com críticas feitas por Ricardo Cappelli, então pré-candidato de oposição ao governo do DF, que apontava riscos na aquisição do Banco Master pelo BRB.

Em uma mensagem à direção do portal, o empresário questionou se seria possível conter a atuação do opositor naquela semana. A resposta atribuída à direção foi: “Deixa comigo”.

Os registros indicam que a relação de influência permaneceu até a prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, reforçando os questionamentos sobre a participação do empresário na definição dos conteúdos publicados.

Caso amplia debate sobre independência jornalística

As mensagens descritas pela revista Fórum levantam dúvidas sobre a separação entre interesses comerciais e decisões editoriais no Metrópoles. O material indica que Vorcaro teria participado não apenas da sugestão de pautas, mas também da revisão de textos, da retirada de informações e da definição do enfoque de reportagens envolvendo temas de seu interesse.

A situação ganha relevância diante do contrato publicitário de R$ 20 milhões firmado entre o Banco Master e o portal em 2024. Embora a existência do acordo não comprove, isoladamente, uma relação de causa e efeito entre publicidade e cobertura jornalística, a combinação dos registros comerciais com as mensagens sobre alterações editoriais suscita questionamentos sobre a autonomia da redação.

A direção do Metrópoles, por meio de sua CEO, Lilian Tahan, afirmou que a consulta a fontes para verificar o contexto de informações é uma prática adotada com representantes de diferentes setores. Ela também negou que o contrato publicitário tenha interferido na cobertura editorial e citou reportagens críticas a empresas ligadas a Vorcaro.

Os fatos relatados permanecem sujeitos à análise das autoridades competentes, que deverão avaliar as provas e as circunstâncias dos contatos registrados.

Com informações da revista Fórum.

Fonte:Folha de Mato Grosso