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Da “motosserra” ao custo social: modelo econômico de Milei entra no debate eleitoral brasileiro

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Após quase três anos de governo, a Argentina registra queda expressiva da inflação e melhora nas contas públicas, mas enfrenta pressão sobre o emprego, o consumo e a renda. Experiência de Javier Milei divide opiniões entre Flávio Bolsonaro e Lula e levanta questionamentos sobre os impactos do ajuste econômico.

O modelo econômico adotado pelo presidente argentino, Javier Milei, tornou-se um dos temas do debate político brasileiro. Desde que assumiu o governo, em 2023, o ultraliberal promoveu um amplo programa de ajuste fiscal, conhecido como “Plano Motosserra”, com cortes de gastos públicos, redução de subsídios, desvalorização do peso e medidas de desregulamentação da economia.

A estratégia produziu resultados em alguns indicadores, especialmente no controle da inflação e no equilíbrio das contas públicas. Ao mesmo tempo, os efeitos sociais das medidas passaram a alimentar críticas, em meio a dificuldades enfrentadas por empresas, trabalhadores e famílias.

No Brasil, o tema ganhou dimensão eleitoral. Enquanto Flávio Bolsonaro (PL) apresenta Milei como uma referência de gestão econômica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chama atenção para os custos sociais de políticas de ajuste mais severas.

Inflação recua, mas recuperação econômica enfrenta obstáculos

Sob a gestão Milei, a inflação argentina caiu de 211,4% em 2023 para 31,5% em 2025, segundo os dados citados pelo g1. O governo também conseguiu registrar resultados positivos nas contas públicas, enquanto as exportações cresceram e o país voltou a apresentar saldos positivos no comércio exterior.

O mercado financeiro reagiu inicialmente de forma favorável. Em 2024, primeiro ano completo de Milei no poder, o índice S&P Merval, principal referência do mercado acionário argentino, acumulou valorização expressiva. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4%.

Os indicadores, porém, não contam toda a história. A dificuldade para acumular reservas em dólar, a desvalorização da moeda e o desgaste político passaram a pesar sobre as expectativas econômicas. A recuperação também não se traduziu de maneira uniforme na vida cotidiana da população.

Empresas fecham e famílias sentem os efeitos do ajuste

O impacto social das medidas tornou-se um dos principais pontos de contestação ao governo argentino. Dados citados na reportagem do g1 apontam que mais de 32 mil empresas fecharam ou deixaram de manter funcionários registrados desde o início da gestão. O desemprego chegou a 7,9%, o maior nível desde 2021, conforme os números apresentados na publicação.

A perda de poder de compra também pressionou o consumo. Em regiões mais pobres, cozinhas comunitárias passaram a receber mais pessoas, enquanto relatos apontam o retorno do escambo  troca de produtos sem dinheiro  e a busca por empréstimos de curto prazo para garantir despesas básicas.

O comerciante Gustavo Raúl Pérez, dono de uma loja de ferragens em Buenos Aires, relatou a redução das vendas e o impacto sobre pequenos negócios. Segundo ele, antes vendia dez carrinhos de mão e, mais recentemente, passou a vender apenas um.

“Votei em Milei acreditando que ele traria mudanças para melhor, mas ele realmente me decepcionou”, afirmou Pérez à agência Reuters.

A situação ilustra o dilema enfrentado pelo governo: os resultados fiscais e a redução da inflação convivem com dificuldades econômicas que atingem diretamente parte da população.

Educação amplia pressão sobre o governo

A área da educação também se tornou foco de insatisfação. Estudantes e professores realizaram protestos para cobrar mais recursos para as universidades públicas. Em Buenos Aires, uma das manifestações terminou em confronto com a polícia.

As mobilizações reforçam a tensão entre a política de contenção de gastos defendida pelo governo e a demanda por financiamento de serviços públicos. Para os críticos, o ajuste transfere uma parcela significativa do custo da reorganização econômica para a população. Já os defensores da estratégia argumentam que o equilíbrio fiscal é necessário para estabilizar o país.

Popularidade de Milei entra em queda

O desgaste econômico passou a afetar a imagem do presidente argentino, sobretudo entre os segmentos de menor renda.

Pesquisa AtlasIntel divulgada em setembro, conforme os dados reproduzidos pelo g1, apontou que a desaprovação de Milei entre entrevistados que ganham até cerca de US$ 650 por mês chegou a quase 70%, enquanto a aprovação ficou abaixo de 30%.

No conjunto da população, a desaprovação alcançou 58%, diante de 38,1% de aprovação. Um ano antes, entre os entrevistados de menor renda, a desaprovação era de 57%, e a aprovação, de 37%.

As eleições presidenciais argentinas estão previstas para outubro de 2027, e a avaliação do governo deverá continuar influenciando o debate sobre os rumos econômicos do país.

O que a experiência argentina significa para o Brasil?

A discussão sobre Milei expõe diferenças importantes entre os projetos econômicos apresentados no cenário político brasileiro. De um lado, defensores de um Estado menor destacam o ajuste fiscal, a redução da inflação e a busca por maior equilíbrio das contas públicas. De outro, críticos alertam para os riscos de cortes abruptos sobre serviços públicos, emprego, renda e consumo.

Federico Servideo, diretor-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo, reconhece avanços econômicos durante o governo Milei, mas pondera que a execução do plano também trouxe desafios.

A experiência argentina, portanto, não oferece uma resposta simples para o Brasil. Seus resultados mostram tanto a importância da estabilidade macroeconômica quanto os limites de uma recuperação que não chega da mesma forma a todos os setores da sociedade.

Com a economia no centro da disputa eleitoral brasileira, o caso de Milei deve continuar sendo usado como argumento por diferentes correntes políticas. A questão central é saber como conciliar equilíbrio fiscal, crescimento econômico e proteção social sem ignorar os efeitos concretos das decisões sobre a vida da população.

Fonte:Folha de Mato Grosso