Carregando data...
☀ Barra do Garças-MT -- °C

Do passaporte ao asilo de Trump, a cronologia da fuga de Flávio aos EUA

PUBLICIDADE

Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência  • Charles Vieira

Dois dias após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial e um dia depois de o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinar a entrega de seus passaportes, o senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos nesta terça-feira (27). Integrantes de seu entorno afirmam que o governo de Donald Trump sinalizou autorização de permanência no país.

A possibilidade da fuga de Flávio começou com a publicação do jornal argentino Infobae, afirmando que o senador teria cruzado a fronteira em um voo privado rumo à Argentina. Ao longo do dia, veio a confirmação: Flávio estava, de fato, a caminho dos Estados Unidos.

Entenda, a seguir, a sequência dos acontecimentos, o que dizem aliados e adversários políticos e quais podem ser os próximos desdobramentos jurídicos e políticos para Flávio Bolsonaro.

As notícias ao longo do dia

  • Manhã: o sumiço, o prazo para entrega dos passaportes e o cancelamento dos documentos

Após os rumores da fuga, começaram a chegar as primeiras notícias sobre uma possível fuga de Flávio, que, segundo os próprios aliados, estava incomunicável.

O governo brasileiro acionou autoridades argentinas para apurar o possível deslocamento do senador para o país vizinhos, enquanto a PF (Polícia Federal) verificava registros nos postos de fronteira. Até aquele momento, o paradeiro do senador era desconhecido pelas autoridades brasileiras.

O senador não respondia às tentativas de contato de integrantes de sua equipe jurídica e de aliados. Os advogados esperavam encontrá-lo para receber os passaportes e entregá-los à PF, conforme a determinação de Moraes. O prazo terminou às 11h, sem que os documentos físicos fossem apresentados.

A PF cancelou os passaportes comum e diplomático do senador em seus sistemas. Flávio, porém, tem cidadania italiana desde 2023 e pode ter direito a um passaporte daquele país. Esse terceiro documento só pode ser cancelado por autoridades italianas.

  • Início da tarde: a confirmação da viagem aos Estados Unidos

Fontes próximas à família Bolsonaro confirmaram que Flávio havia deixado o país durante a madrugada com a mulher e as duas filhas, em direção aos Estados Unidos. Uma fonte do governo americano ouvida pela Reuters também confirmou que o senador estava a caminho do país.

Segundo aliados, a saída foi motivada pelo receio de prisão após a decisão de Moraes. Eles também afirmaram que o governo Trump sinalizou a possibilidade de asilo político para Flávio e sua família.

O senador é investigado pelos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos no caso Dark Horse, que apura o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Mendonça conduz o inquérito.

Outra investigação, de relatoria de Moraes, apura a prática, por Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foi no âmbito deste inquérito e com base em um pedido da Polícia Federal que Moraes determinou na segunda-feira a entrega e o posterior cancelamento dos passaportes do senador.

Reação dos aliados

A notícia da saída provocou desconforto entre integrantes do PL que haviam aconselhado Flávio a não fugir e adotar uma estratégia jurídica para contestar a eleição. Para uma ala, a fuga foi considerada “inaceitável“.

No PL, o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, convocou uma reunião de emergência para discutir a situação. Na avaliação de aliados, a ausência do senador pode dificultar a reorganização do bolsonarismo após a derrota.

Rogério Marinho, que coordenou a campanha presidencial, afirmou que o núcleo central da candidatura não havia sido comunicado e disse estar “surpreso” com a decisão do ex-candidato à Presidência.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, adotou tom cauteloso: “Qualquer que seja a decisão de Flávio Bolsonaro, é preciso ser compreendida“.

Já o governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), classificou a saída como “compreensível” e questionou a ordem de entrega dos passaportes. “O Brasil segue longe da normalidade institucional“, escreveu nas redes sociais.

O deputado Alfredo Gaspar (PL), vice na chapa presidencial, afirmou que Flávio sofre uma “perseguição implacável” e manifestou solidariedade à mulher e às filhas do senador.

Reação da oposição

Integrantes do PT (Partido dos Trabalhadores) reagiram com críticas ao senador, à decisão de Moraes e com medidas judiciais. Os deputados federais Lindbergh Farias (RJ) e Rogério Correia (MG), além da deputada federal eleita Ana Elisa Santos (MG), pediram a Moraes a prisão preventiva de Flávio. A deputada federal Sâmia Bomfim, do PSOL, também pediu a cassação do mandato de Flávio no Senado.

Aliados e membros do governo solicitaram também um alerta vermelho da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) caso a ordem de prisão seja expedida. O pedido cita o descumprimento da determinação de entrega dos passaportes e o risco de fuga.

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães (PT), afirmou que a saída contraria uma declaração feita pelo senador durante a campanha, quando disse que respeitaria o resultado das urnas.

“Ele disse que ia respeitar o resultado das urnas e na primeira derrota, o cara vai embora, ele é um frouxo“, afirmou Guimarães à CNN Brasil.

A Polícia Federal, por sua vez, havia alertado Moraes no domingo (25) sobre o risco de Flávio deixar o país. Segundo delegados ouvidos pela CNN, a saída do senador concretizou o risco apontado à Justiça.

Já a área internacional do Palácio do Planalto admite que a fuga de Flávio pode desgastar ainda mais a relação com o governo norte-americano.

Na avaliação de alguns interlocutores do presidente, a medida de Moraes também foi precipitada e deu à oposição um argumento para sustentar o discurso de perseguição à família Bolsonaro.

A fuga repercutiu em veículos da imprensa internacional, que questionaram o paradeiro do senador, as investigações que o envolvem e os possíveis efeitos do episódio sobre o futuro da direita brasileira. A mídia estrangeira falou que os Estados Unidos viraram “refúgio dos Bolsonaro“, citou “reviravolta dramática” e também a “incerteza” do futuro da extrema direito no Brasil.

O que pode acontecer daqui para a frente?

A saída do país pode ter consequências judiciais e políticas. Especialistas ouvidos pela CNN Brasil avaliam que o descumprimento da ordem de entrega dos passaportes, associado ao risco de fuga, pode fundamentar um pedido de prisão preventiva. A medida, porém, depende de decisão judicial.

“Se ele não entrega o passaporte e de fato está tentando fugir, aí sim há um requisito claro para prisão preventiva”, afirmou Luisa Ferreira, professora de Direito da FGV (Fundação Getulio Vargas).

O advogado José Paes Neto também avalia que a saída pode prejudicar a defesa do senador. “Juridicamente, é a pior escolha possível para a defesa“, disse. Segundo Neto, eventuais investigações podem continuar mesmo com Flávio no exterior, enquanto um processo de extradição dependeria de um caminho longo e incerto.

No campo político, a ausência do senador abre espaço para outros nomes disputarem a liderança da oposição a Lula. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é apontado por interlocutores do entorno de Bolsonaro como uma alternativa para ocupar esse espaço e disputar a Presidência em 2030.

Flávio também vai perder o foro privilegiado em fevereiro de 2027, quando termina seu mandato no Senado, após 24 anos em cargos parlamentares. Segundo as informações disponíveis, os inquéritos que tramitam no STF devem continuar na Corte, embora a competência para julgá-los possa ser reavaliada conforme as circunstâncias de cada caso.

A situação do senador nos Estados Unidos também permanece em aberto. O Departamento de Estado americano informou que emitirá vistos para Flávio e sua família e permitirá a entrada deles no país, mas isso não equivale à concessão de asilo político.

Fonte: Cnn Brasil