REPRODUÇÃO
Imagens das câmeras de segurança da agência do Sicoob instalada no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) registraram movimentações de dinheiro em espécie atribuídas a pessoas ligadas ao presidente afastado da Corte, Sérgio Ricardo de Almeida. Segundo relatório da Polícia Federal (PF), as operações continuaram mesmo depois que agentes estiveram no local, em outubro de 2025, para obter informações sobre o funcionamento da cooperativa.
Entre os registros analisados pelos investigadores estão imagens da chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, Roseli Loss, retirando dinheiro no caixa e de Adriangelo Barros Antunes, secretário executivo, recolhendo os valores. Em algumas ocasiões, conforme a investigação, o dinheiro era colocado em mochilas ou transportado em malotes.
A PF considera que a presença dos agentes na agência pode ter provocado uma mudança na maneira como os recursos eram movimentados. O relatório aponta que, depois da diligência, as retiradas de quantias próximas a meio milhão de reais deixaram de ocorrer no padrão identificado anteriormente. Ainda assim, saques em dinheiro vivo foram registrados em 2026.
DILIGÊNCIA MUDOU PADRÃO DAS OPERAÇÕES
A visita dos policiais federais ocorreu na manhã de 14 de outubro de 2025. De acordo com o relatório, os agentes foram à agência para levantar informações sobre a estrutura e o funcionamento do Sicoob. Durante a permanência no local, teriam observado uma operação envolvendo Roseli e Adriangelo.
A dinâmica descrita pelos investigadores indicava que Roseli realizava o saque, enquanto Adriangelo recolhia o dinheiro e o colocava em uma mochila. A movimentação chamou a atenção dos agentes por se assemelhar a outras operações identificadas durante a apuração.
Segundo a PF, a partir daquela data houve uma interrupção nos provisionamentos e nas retiradas em espécie que vinham sendo realizadas com frequência. O documento considera que a alteração pode indicar que os envolvidos perceberam que as operações estavam sob observação policial.
A investigação, porém, aponta que as movimentações financeiras não cessaram por completo. Em maio de 2026, Roseli teria realizado duas retiradas de R$ 100 mil, nos dias 11 e 14, valores inferiores aos saques de até R$ 500 mil identificados anteriormente.
MAIS DE R$ 14 MILHÕES EM SAQUES
O relatório da PF também reúne dados sobre a frequência e o volume das retiradas realizadas em 2025. Uma comunicação de operações suspeitas analisada na investigação registrou 144 saques entre 1º de janeiro e 29 de setembro daquele ano, com valores que variavam de R$ 1 mil a R$ 490 mil. No período, o total chegou a R$ 14,1 milhões.
A apuração identificou ainda retiradas de R$ 500 mil em 30 de setembro e de R$ 490 mil em 8 de outubro. Outros provisionamentos de R$ 490 mil foram identificados para os dias 14 e 22 de outubro.
Conforme os cálculos apresentados pela Polícia Federal, Sérgio Ricardo teria movimentado, em média, cerca de R$ 54,3 mil por dia em dinheiro vivo, o equivalente a mais de R$ 1,6 milhão por mês.
O conselheiro afirmou que os valores tinham origem em pagamentos retroativos referentes aos quatro anos em que permaneceu afastado do TCE-MT. Os investigadores, por sua vez, apontam que as quantias seriam incompatíveis com a remuneração formal do cargo e com os dados consultados no Portal da Transparência.
DINHEIRO TAMBÉM TERIA SIDO TRANSFERIDO
Além dos saques, a PF identificou créditos provenientes do TCE-MT em valores considerados elevados. Conforme o relatório, os repasses mensais analisados, somados no período investigado, ultrapassaram R$ 1 milhão.
Os investigadores também apontam que parte dos recursos teria passado a ser transferida para contas de terceiros, enquanto outra parcela permanecia na conta bancária ou continuava sendo retirada em espécie.
Roseli Loss figurava formalmente como procuradora e representante legal das contas bancárias de Sérgio Ricardo no Sicoob Integração. Para a PF, essa condição é um dos elementos que indicam a ligação da chefe de gabinete com as movimentações financeiras investigadas.
A apuração busca esclarecer se recursos públicos do TCE-MT, abastecido por repasses do orçamento estadual, teriam sido desviados por meio de pagamentos a fornecedores e de ordens bancárias. A suspeita é de que parte do dinheiro destinado a empresas contratadas retornava aos investigados por meio de um sistema paralelo de pagamentos.
O relatório também descreve um episódio ocorrido após a diligência de outubro de 2025. Segundo o documento, um dos policiais tentou acompanhar Adriangelo depois que ele deixou a agência, mas a ação foi interrompida após a intervenção da segurança do tribunal.
INVESTIGADOS CONTINUAM PRESOS
A investigação integra a Operação Tomada de Contas, deflagrada em 29 de outubro por determinação do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Após audiência de custódia realizada na quinta-feira (29), Sérgio Ricardo permaneceu preso no Batalhão de Operações Especiais (Bope), em Cuiabá. Roseli Loss foi encaminhada ao presídio feminino Ana Maria do Couto May, também na capital.
Outros servidores de alto escalão citados na operação — Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Gustavo Fernandes da Silva e Felipe José Glinke — também tiveram a prisão mantida e foram encaminhados à Sala de Estado-Maior da Penitenciária Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande.
A decisão do STJ também determinou o afastamento dos conselheiros Guilherme Maluf, José Carlos Novelli, Alisson Carvalho de Alencar e Valter Albano.
A investigação apura suspeitas de desvio de recursos públicos e outras possíveis irregularidades. As suspeitas descritas nos documentos policiais ainda dependem da apuração judicial e não equivalem, por si só, a uma condenação dos investigados.
*Com informações e imagens do Olhar Direto.




