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Fuga de Flávio teve participação de agência ‘fantasma’ e ex-oficial de inteligência de Israel

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SP – FLÁVIO/BOLSONARO/GUARULHOS – POLÍTICA – Flávio Bolsonaro, (PL) senador e candidato a presidência participa de evento em Guarulhos, SP. nesta quarta feira (21). 21/10/2026 – Foto: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

A fuga do senador e candidato derrotado nas eleições presidenciais brasileiras Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos contou com uma complexa operação logística na Argentina, envolvendo três registros de entrada em um intervalo de 40 minutos com documentos diferentes, além do apoio de uma van escoltada e a participação de um homem apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel. É o que revela uma investigação feita pelo Fantástico, da TV Globo, exibida no domingo, 1º de novembro.

Os detalhes, conforme a exibição, foram obtidos com base em informações e documentos do sistema de imigração da Argentina que integram uma investigação realizada em cooperação internacional.

Segundo a reportagem, o ponto de partida do voo para o exterior foi a cidade de Puerto Iguazú, na Argentina, vizinha a Foz do Iguaçu, no Paraná, cujo aeroporto internacional possui uma pista de 3.300 metros apta a receber jatos executivos de grande porte

Flávio deixou o Brasil após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal, poucos dias após a derrota para o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nas eleições presidenciais do Brasil.

SP – FLÁVIO/BOLSONARO/GUARULHOS – POLÍTICA – Flávio Bolsonaro, (PL) senador e candidato a presidência participa de evento em Guarulhos, SP. nesta quarta feira (21). 21/10/2026 – Foto: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Agência de turismo fantasma

A rota foi dividida em duas frentes: o senador viajou de Brasília para a região de Buenos Aires, às 5h05 de terça-feira, 27, em um jato privado ligado ao advogado Willer Tomaz. Depois, seguiu em outro voo privado, para Puerto Iguazú.

Já sua mulher, Fernanda, e as duas filhas partiram da capital federal em outra aeronave com destino a Cascavel, no Paraná. Posteriormente, por volta das 20h do mesmo dia, as três embarcaram em uma van da empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda., com sede em Foz do Iguaçu, no hangar do aeroporto de Cascavel.

A reportagem constatou que o endereço da Dallas Turismo na Receita Federal corresponde apenas a um estacionamento, onde trabalhadores locais afirmaram que a agência nunca funcionou.

A responsável pelo local disse ser irmã de uma representante da empresa, mas esquivou-se de passar o endereço dela. Em nota, a Dallas Turismo negou ter transportado o candidato.

Documentos obtidos pelo Fantástico revelam que duas vans cruzaram a fronteira de Foz do Iguaçu em direção à Argentina naquela noite, sendo que em uma delas, vinda de Cascavel, estavam os dados da mulher e das filhas de Flávio.

No caso do senador, o sistema migratório argentino registrou, na mesma van, três entradas em um curto intervalo de tempo – às 22h37 com passaporte italiano, às 22h40 com carteira de motorista e às 23h11 com passaporte brasileiro -, mas os dois registros feitos com documentos do Brasil foram cancelados posteriormente, validando apenas a entrada com o passaporte italiano.

A outra van cruzou o controle de fronteira com o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre, que atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel e com histórico de eventos ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Menachem havia ingressado no Brasil em outubro pelo aeroporto de Guarulhos, somando quatro passagens pelo País ao longo do ano. Já o motorista, ao ser procurado, afirmou que foi contratado apenas para fazer o trajeto de um posto de gasolina em Foz do Iguaçu até o aeroporto de Puerto Iguazú. Ele negou a presença de membros da família Bolsonaro na viagem.

Questionamentos levantados

Apesar do registro de entrada por terra, a investigação aponta que Flávio chegou a Puerto Iguazú em um voo vindo de Buenos Aires e ficou horas esperando a família dentro do avião na pista.

A operação gerou questionamentos na Argentina, levando a Justiça do país a ordenar a preservação de imagens de segurança do aeroporto e da fronteira de Puerto Iguazú.

Em entrevista, a deputada argentina Marcela Pagano afirmou ter cobrado explicações oficiais sobre possíveis irregularidades no processo, destacando a suspeita de falhas no controle de imigração, além do uso indevido de escolta policial e de veículos diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

Já o secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, disse que o governo não tem nada a declarar, conforme destacou o Fantástico.

A viagem aos EUA em jato de luxo, operado pela empresa argentina Baires Fly, custou US$ 150 mil, pagos por um intermediário norte-americano, e teria sido articulada por Jason Miller, assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conforme apontou a imprensa americana. O jornal argentino Clarín publicou que agentes norte-americanos teriam assumido o controle de parte do aeroporto de Puerto Iguazú.

Sobre a chegada de Flávio aos EUA, o presidente Donald Trump afirmou que não tomou partido nas eleições brasileiras. Além disso, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou qualquer auxílio na saída do senador do Brasil, segundo divulgado pelo Fantástico.

Ajuda de Trump

Flávio está na Flórida com a família com uma autorização temporária de entrada concedida por ordem de Trump e provavelmente receberá residência permanente posteriormente, segundo autoridades norte-americanas.

Agentes de imigração dos Estados Unidos permitiram que ele e sua família entrassem no país sob o regime conhecido como parole, uma autorização temporária geralmente concedida por razões humanitárias, depois que desembarcaram em Miami em um jato particular na manhã de quarta-feira, segundo uma autoridade norte-americana ouvida naquele dia.

O jato foi providenciado por um funcionário da Casa Branca. Na tarde da quarta-feira, Trump afirmou que Flávio havia recebido um “passe” para entrar no país.

Um registro público do governo norte-americano sugere que Flávio apresentou um passaporte diplomático brasileiro cancelado ao chegar aos Estados Unidos, segundo análise do The New York Times. O documento menciona um número emitido no Brasil que, de acordo com informações públicas, está vinculado ao passaporte diplomático do senador.

Conforme reportagem do jornal The New York Times, todo o trajeto foi realizado em um jato particular providenciado por Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca, segundo uma pessoa a par da logística da viagem.

O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, mantém contato com Miller. O plano começou a ser colocado em prática na segunda-feira, depois que Flávio recebeu a determinação para entregar seus passaportes, afirmou a fonte.

Miller, que ocupa o cargo de funcionário especial do governo norte-americano, recusou-se a comentar.

A Casa Branca limitou-se a citar declarações públicas de Trump, que não trataram do uso do jato particular.

Posicionamentos

O advogado de Flávio, Frederick Wassef, negou que a viagem tenha sido uma fuga e declarou ao Fantástico que nenhuma informação sobre o trajeto é oficial ou confirmada.

Já a empresa Baires Fly não enviou resposta sobre o caso.

Por sua vez, a assessoria do advogado Willer Tomaz divulgou uma nota oficial afirmando ser falsa a informação de que qualquer aeronave de sua propriedade ou de empresas vinculadas à sua família tenha sido utilizada pelo senador ou por seus familiares para deixar o território brasileiro.

Carros camuflados e vários jatos

A fuga envolveu a ajuda norte-americana tanto em território argentino quanto no brasileiro e o aluguel de pelo menos três jatos diferentes, para ter alternativas caso o plano original falhasse, conforme reportagem do Clarín assinada por Nicolás Wiñazki.

Segundo o texto, na terça-feira, quase à meia-noite, as câmeras de TV filmaram uma van branca com vidros escurecidos chegando ao aeroporto de Puerto Iguazú, e todos acreditaram que lá dentro estariam o candidato derrotado e sua família. A decolagem quase imediata do jato particular Gulfstream IV, matrícula LV-JQW, com destino a Miami, nos Estados Unidos, acabaria reforçando isso.

Mas, segundo o Clarín, a realidade era diferente. A família Bolsonaro havia chegado ao aeroporto de Puerto Iguazú uma hora antes, em um veículo cujos movimentos teriam sido organizados por agentes dos Estados Unidos. Esse veículo teria entrado na pista de pouso e decolagem por uma entrada secreta à qual ninguém havia prestado atenção.

O plano de fuga incluiu, diz a reportagem, a contratação de pelo menos três, talvez quatro jatos particulares de alto custo operacional que sobrevoaram a região, pousaram em Misiones ou foram posicionados como opções de saída alternativas – uma delas no Paraguai -, caso o Plano A para retirar os Bolsonaro da região fosse frustrado. Esses jatos chegaram a voar ao mesmo tempo para os Estados Unidos, de forma que fosse muito difícil identificar em qual deles, realmente, a família viajava.

Também foram mobilizadas caminhonetes e carros com placas capazes de evitar bloqueios no Brasil e na Argentina.

‘Não me arrependo de absolutamente nada do que fiz’

Horas após desembarcar nos Estados Unidos, Flávio divulgou uma carta contestando, sem provas, o resultado das eleições presidenciais. Na primeira versão, ele se qualificava como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Posteriormente, em versão modificada, passou a se definir como “líder do Brasil”.

No domingo, 1º, o senador, em publicação nas redes sociais, disse que não se arrepende de nada do que fez. No texto, ele volta a falar sobre a intimação para a entrega do passaporte, ocorrida após visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Não sai do Brasil, sai pelo Brasil! Sonhei com a mudança do nosso país para melhor e, no domingo, apenas sete minutos após o anúncio do resultado das eleições já havia uma decisão judicial com medidas cautelares contra mim, com base em mentiras”, reclamou.



Fonte: Pnb Online