A última vez que Norma viu seu filho foi no final de janeiro, quando o deixou em um aeroporto em Lima, capital do Peru. Ele lhe disse que havia conseguido um trabalho como cozinheiro para o Exército russo anunciado nas redes sociais, garantindo que estaria longe da guerra na Ucrânia, ganharia um bom dinheiro e ainda teria a chance de obter a cidadania russa.
Norma suspeitou imediatamente. Seu filho, de 31 anos, nunca havia saído do Peru antes e nem sequer tinha segurado uma arma. (A CNN não publica o nome completo de Norma nem o de seu filho para protegê-los de represálias).
“Queria trancá-lo em casa, mas ele já tinha tomado uma decisão”, disse Norma à CNN. Ela até considerou chamar a polícia. “Ele me disse: ‘Mãe, por favor, entenda, só vou como cozinheiro’. Mas o coração de mãe sabe, senão eu não teria me sentido tão ansiosa”.
Quando o deixou no aeroporto, Norma viu que havia outros esperando para voar à Rússia também. Ela tentou interrogá-los, mas eles se recusaram a falar com ela.
“Meu filho me pediu para não envergonhá-lo, que eu tinha que acreditar nele, que ele só iria trabalhar como cozinheiro”, disse ela. “Ele me deixou com o coração partido. Algo me dizia que havia algo errado. Me despedi, e essa foi a última vez que o vi”.
Seus instintos estavam corretos. Em pouco tempo, Norma recebeu vídeos de seu filho que mostravam a verdadeira natureza do trabalho. Ele havia se juntado às fileiras de centenas de homens peruanos que, supostamente, foram atraídos para as forças armadas russas por recrutadores locais e anúncios em redes sociais com promessas de emprego lucrativo na Rússia, apenas para se verem lutando nas linhas de frente da guerra na Ucrânia.
Pouco depois de o filho de Norma se juntar, ele enviou à mãe imagens suas com equipamento de combate, cavando trincheiras e construindo abrigos de madeira de pinho com outros combatentes estrangeiros em uma floresta ucraniana, vídeos que ela compartilhou com a CNN.
Nas chamadas esporádicas que Norma tinha com seu filho e nas mensagens de vídeo que ele enviava, ela podia ouvir drones explodindo ao fundo, embora ele a assegurasse de que estavam longe.
Os vídeos logo deixaram de chegar no início de abril, quando o filho de Norma disse que estava sendo “punido” por um comandante devido a um mau comportamento.
“Eu disse: ‘Isso é mentira, você vai lutar na linha de frente’”, ela lembrou. “Ele me disse para me acalmar. E desde aquele dia não tive mais notícias dele”.
“Tenho essa luz de esperança de que ele esteja em algum lugar, escondido em uma trincheira, mas realmente não sei”.
“Carne de canhão”
À medida que a guerra da Rússia na Ucrânia se prolonga, as forças armadas russas têm feito grandes esforços para aumentar suas fileiras, incluindo o recrutamento de combatentes estrangeiros de países em desenvolvimento com promessas de altos salários e bônus.
Em fevereiro, a CNN informou que numerosos homens de países africanos foram obrigados a prestar serviço militar na Rússia depois de lhes serem oferecidos empregos civis bem remunerados como motoristas ou seguranças.
Uma dezena de homens que falaram com a CNN disseram que, pouco depois de chegarem à Rússia, foram forçados a assinar contratos em russo, receberam treinamento mínimo e foram enviados ao combate.
Vários países protestaram contra o recrutamento russo. O ministro das Relações Exteriores do Quênia viajou a Moscou em março para exigir que a Rússia parasse de recrutar quenianos, descrevendo a rede que leva cidadãos quenianos à Rússia como uma rede de tráfico de pessoas. A Embaixada da Rússia em Nairóbi classificou as acusações como “perigosas e enganosas” em uma declaração à Deutsche Welle.
Depois que milhares de cidadãos nepaleses se ofereceram como voluntários para lutar pela Rússia, o Nepal proibiu qualquer viagem à Ucrânia ou à Rússia por motivos de trabalho.
As histórias dos recrutas peruanos e de suas famílias são semelhantes. A CNN conversou com 12 famílias que têm protestado por semanas em frente à Embaixada da Rússia em Lima e ao Ministério das Relações Exteriores do Peru, esperando respostas sobre o paradeiro de seus familiares.
Muitos dos homens vêm de contextos empobrecidos e sabem pouco sobre o que poderia esperá-los na Rússia.
Pedro Bravo, diretor de Comunidades Peruanas no Exterior do Ministério das Relações Exteriores do Peru, disse à CNN que muitos recrutas “têm recursos limitados e estão em necessidade urgente” de dinheiro. “Eles não têm uma compreensão muito clara da realidade internacional”, disse Bravo. “É muito mais fácil enganá-los”.
Rosa, uma mãe de três filhos que pediu à CNN para não usar seu sobrenome, disse que seu marido, de 48 anos, viajou à Rússia junto com vários outros peruanos, na esperança de conseguir trabalho como segurança. Ele havia trabalhado como agente penitenciário em Lima, mas Rosa afirmou que seu marido não tinha experiência militar antes de se inscrever por meio de um recrutador local no Peru.
A CNN viu e analisou mensagens de WhatsApp entre o marido de Rosa e um recrutador que falava espanhol, apelidado de “Vizio”. As mensagens mostram que ele aceitou “se alistar no Exército da Federação Russa” por um contrato de um ano.
O recrutador, que se recusou a ser entrevistado e rejeitou fornecer à CNN seu nome real quando foi contatado, disse ao marido de Rosa que ele teria seguro de saúde e de vida e que seria repatriado ao Peru caso fosse ferido.
Rosa insiste que seu marido não sabia que seria enviado para a guerra.
“Eles nunca lhe disseram que ele iria para a guerra, que teria de sacrificar a vida, que não receberia pagamento. Ele não teria ido para lá”, disse ela à CNN em uma entrevista por telefone.
Após viajar para a Rússia, as mensagens que o marido de Rosa enviava para casa soavam tranquilizadoras. Mas logo se tornaram fragmentadas, e ele frequentemente apagava as mensagens poucos momentos depois de enviá-las.
“Ele me disse: ‘Acho que nos trouxeram para a guerra. Isto é um inferno’”, contou Rosa. Outras mensagens descreviam fome, treinamentos militares duros, ataques constantes de drones e recrutas punidos por não entenderem ordens em russo.
Em 26 de março, ele disse a Rosa que seria transferido novamente e recebeu ordens para recolher suas armas e pertences. “Ele me disse: ‘Eu amo muito vocês todos. Sempre estarão no meu coração’”, lembrou Rosa.
Ela não recebeu mais nenhuma mensagem dele desde então. Vários de seus companheiros disseram a Rosa que ele morreu em um ataque de drone, mas ela ainda está convencida de que ele está vivo. “Os levaram para lá como carne de canhão, como se suas vidas não valessem nada”, disse Rosa, chorando. “Tenho três filhos que choram dia e noite pelo pai”.
A CNN entrou em contato com o Ministério da Defesa da Rússia para pedir comentários.
O tema chamou a atenção do governo, e a Promotoria do Peru anunciou no mês passado que o governo está investigando o recrutamento russo, que descreveu como “tráfico de pessoas”.
Percy Salinas, um advogado que representa algumas famílias dos recrutas, entregou à CNN uma cópia de uma ordem fiscal que descreve o alcance do caso judicial.
As autoridades estão investigando 36 denúncias de cidadãos peruanos que afirmam que seus familiares ou amigos foram enganados “por meio de ofertas falsas de trabalho no exterior, especificamente na Federação Russa, com o objetivo de transportá-los para fora do país e submetê-los a… participação forçada em um conflito armado entre a Rússia e a Ucrânia”, segundo a ordem.
A promotoria recusou-se a comentar o caso quando foi contatada pela CNN.
Bravo, do Ministério das Relações Exteriores, disse à CNN que o governo peruano fez pelo menos 247 solicitações separadas a Moscou para obter informações sobre peruanos nas forças armadas russas e exigiu “o retorno imediato e seguro de nossos compatriotas ao seu país de origem, dado que saíram sem a devida autorização”.
A Rússia afirmou que “respeita profundamente a decisão de cidadãos estrangeiros de participar da defesa da soberania e segurança (russas)”.
“A embaixada reafirma sua permanente disposição de tomar todas as medidas necessárias para obter informações o mais rápido possível com base em solicitações apresentadas formalmente”, disse a Embaixada da Rússia em Lima em um comunicado de abril sobre as “preocupações das famílias peruanas”.
Tráfico de pessoas ou erro humano?
Salinas, um advogado que representa as famílias dos recrutas, estima que atualmente há pelo menos 800 peruanos lutando pela Rússia, muitos dos quais se inscreveram com a promessa de altos salários.
“A razão definitiva pela qual muitas famílias tomaram a decisão, e os homens viajaram para a Rússia, foi uma razão econômica”, disse Salinas à CNN. “Um bônus de US$ 20.000 ao assinar o contrato e salários muito chamativos de US$ 3.000 ou US$ 4.000”.
A maioria nunca recebe o dinheiro prometido, disse o advogado. Numerosos familiares disseram à CNN que seus parentes no Exército russo não conseguiram enviar dinheiro, mesmo depois de já terem começado a receber um salário.
Salinas reconheceu que existe um elemento de “responsabilidade pessoal” para os homens que assinaram contratos com o Exército, mas insistiu que a maioria dos peruanos que lutam pela Rússia foi “atraída por meio de engano”.
“Isso se enquadra na categoria de tráfico de pessoas, e isso é uma questão de direitos humanos”, disse Salinas. “Porque os peruanos foram atraídos para cá sob falsas promessas de trabalho, e isso pode eventualmente levá-los à morte”.
Um soldado peruano que atualmente está na Ucrânia ocupada pela Rússia contou uma história semelhante à CNN.
“Eu tomei a decisão de vir para cá pelo trabalho que me ofereceram; era melhor pago do que o que se ganha no Peru, e me disseram que eu iria trabalhar como segurança em Moscou”, disse Guillermo, um veterano do Exército peruano de 28 anos de Lima.
A CNN alterou seu nome para protegê-lo de represálias. “Estou alistado há três meses e meio e, sinceramente, quero voltar ao Peru”.
Guillermo contou à CNN que ele e um amigo foram recrutados por Pocho Wilson Pinto Peña, um oficial da reserva das forças armadas peruanas.
Ao chegar à Rússia, Guillermo disse que seus novos superiores confiscaram seu telefone e o “obrigaram praticamente” a assinar um contrato em russo que não lhe permitiram traduzir.
A CNN analisou uma cópia do contrato, assim como vários outros fornecidos pelas famílias dos recrutas. Todos eram contratos padrão de um ano com as forças armadas russas, semelhantes aos que assinam recrutas estrangeiros de outros países. (O nome de Pinto não aparece em nenhum dos contratos que a CNN analisou).
Pinto disse à CNN que não havia recrutado homens peruanos para a guerra na Rússia, mas que apenas havia fornecido o número de telefone de outro recrutador peruano na Rússia, cujo nome se recusou a revelar. Ele afirmou que os homens que se alistaram sabiam exatamente para onde estavam indo, ou pelo menos deveriam saber.
O recrutador “me disse que só precisava de pessoal, não para quê exatamente”, disse Pinto. “Mas o país está em guerra, então logicamente, como militar, eu saberia para onde estão me levando”.
Pinto disse que havia alertado os homens que conectou ao recrutador de que poderiam ser enviados para a linha de frente e lhes deu conselhos, como: “se vier um drone, você deve se abaixar”.
“Fico muito triste que talvez outras pessoas tenham mentido para eles”, acrescentou Pinto. Ele disse que até acompanhou uma família angustiada até a embaixada russa em Lima para perguntar sobre seus familiares. Pinto está ciente da investigação da promotoria sobre o recrutamento no Peru, que menciona um recrutador chamado “Pocho”, e considera “absurda” a acusação de tráfico de pessoas.
“Não estou envolvido em nenhum tráfico de pessoas, sou um homem honesto”, disse Pinto. “Sou totalmente claro e honesto, nunca estive envolvido em nada disso”.
Da Ucrânia ocupada, Guillermo disse à CNN que sua vida é sombria. O amigo com quem ele havia se alistado foi morto em combate no mês anterior.
“Estou completamente abandonado”, disse Guillermo. “Não tenho comida, nem medicamentos, fui ferido em um ataque de drone e tenho a rótula quebrada”.
“Minha rotina diária é carregar caixas de comida fria ou outros tipos de caixas”, continuou. “Faço tudo isso com a ajuda de uma bengala. Quando faço esse tipo de trabalho à noite, não consigo dormir porque o joelho incha demais e dói. Tudo o que eu quero é voltar para casa”.
Guillermo disse que tentou obter ajuda da embaixada peruana, mas lhe disseram que “não podiam ajudá-lo”: ele havia assinado um contrato.
Bravo, o diretor da diáspora no Ministério das Relações Exteriores, disse à CNN que as mãos do governo peruano estão atadas. “O que eu faço quando a pessoa que diz ter uma lesão no joelho está na linha de frente? Eu não posso ir até a linha de frente para tirá-lo de lá”, disse Bravo. “Essa possibilidade simplesmente não existe”.
Depois que os soldados peruanos assinam seus contratos, acrescentou Bravo, “a situação se torna muito difícil quando se trata de localizá-los”.
Guillermo sabe disso. Ele está dolorosamente consciente de que sua situação parece desesperadora. “Eu vou sair daqui morto em combate ou simplesmente morto”, disse Guillermo. “Não tenho saída”.
Fonte: Cnn Brasil




