O combate ao crime organizado exige mais do que grandes operações policiais e prisões em massa, segundo especialistas de segurança pública durante o IX Congresso Internacional IBSP-SP-2026 (Instituto Brasileiro de Segurança Pública), que teve como tema “Segurança, Cidadania e Ciência”.
O evento ocorreu na última sexta-feira (16), na sede do TJMSP (Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo), na região central da capital paulista. Divididas em quatro painéis, as palestras abordaram temas como formação policial, reformas constitucionais e legislativas, redes digitais e IA no combate a organizações criminosas e direito militar.
Ao longo dos debates, os profissionais dissertaram sobre o tema e apresentaram possíveis soluções para combater o problema. Entre as medidas defendidas estão a fiscalização de atividades que alimentam o comércio ilegal, a melhoria do sistema prisional e mudanças na forma como o trabalho policial é realizado.
O presidente do IBSP (Instituto Brasileiro de Segurança Pública), coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Azor Lopes da Silva Júnior, afirmou que operações que ganham destaque pela apreensão de grandes quantidades de drogas não necessariamente produzem efeitos perceptíveis na segurança cotidiana da população.
Para Azor, a realização de grandes operações não é suficiente para demonstrar que a população está mais segura. Ele citou o risco de uma pessoa continuar exposta a crimes cotidianos, como o roubo de celulares, mesmo diante de ações policiais consideradas bem-sucedidas.
Fiscalização e enfraquecimento do mercado ilegal
O presidente da Feneme (Federação Nacional das Entidades de Oficiais Militares Estaduais), coronel da reserva da Polícia Militar de Santa Catarina Marlon Jorge Teza, defendeu o fortalecimento da fiscalização da polícia ostensiva como forma de desmantelar as atividades comerciais que sustentam o crime.
Segundo Marlon, a corporação deve fiscalizar estabelecimentos que compram ou comercializam produtos de origem ilícita, como ferros-velhos que recebem fios de cobre e celulares roubados e oficinas mecânicas que trabalham com peças roubadas.
A atuação policial, na avaliação do coronel, também precisa ir além da lógica de que o sucesso de uma ocorrência depende necessariamente de uma prisão. Ele citou o princípio atribuído a Robert Peel, o qual propõe que o resultado da ação policial não precisa ser necessariamente a detenção de uma pessoa.
Qualificação dos presídios
Marlon também defendeu mudanças na estrutura do sistema prisional. Para ele, a solução não está necessariamente na construção de mais unidades, mas na qualificação das existentes, com condições para separar presos quando necessário, oferecer estrutura adequada e desenvolver ações de reeducação.
O coronel citou a criação da Polícia Penal como um avanço e defendeu a presença de profissionais especializados para trabalhar com os presos, inclusive no atendimento a questões sociais e familiares.
A preocupação com o sistema prisional também apareceu na discussão sobre a atuação das organizações criminosas. Marlon argumentou que a melhoria das condições e dos processos de tratamento dos detentos é necessária tanto para quem deve permanecer preso quanto para aqueles que podem retornar à sociedade.
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Atuação do Estado
O coronel Francisco Xavier Medeiros de Castro, chefe da Casa Militar de Roraima e pesquisador do IBSP (Instituto Brasileiro de Segurança Pública), defendeu que o Estado amplie o foco do combate ao crime organizado para além das lideranças das facções.
Segundo ele, a identificação de integrantes responsáveis por funções estratégicas, como lavagem de dinheiro, fornecimento de combustível e distribuição de armas, pode provocar rupturas nas redes criminosas.
O coronel explicou que a estratégia é baseada no conceito de “laços fracos” das redes criminais, apresentado pelo pesquisador Bruno Requião no livro Criminofísica. A abordagem prevê ataques seletivos a pessoas que, mesmo sem vínculo direto com facções, desempenham funções relevantes para o funcionamento dessas organizações.
Para o coronel da Polícia Militar de Minas Gerais Alex Sander de Oliveira Toledo, pós-doutor em Física Estatística e Termodinâmica, também é importante identificar esses integrantes.
De acordo com o especialista, retirar pessoas responsáveis por informações, logística e armamentos pode “derrubar” toda a rede criminosa, mesmo quando elas não ocupam posições de liderança.
Fonte: Cnn Brasil




